|
 Low “Trust” (Kranky) Após Things We Lost in The Fire, álbum de 2001 do trio de Duluth, MN, terra natal de Bob Dylan, todos os caminhos apontavam para uma única direção: o topo. As melodias estavam sólidas, as harmonias vocais perfeitas, as canções consistentes. E havia peso inclusive, cortesia dos botões de Steve Albini. O álbum mostrava uma banda madura e com muito para mostrar depois de mais de meia dúzia de álbuns. Nesse sentido, Trust é um passo em falso. A coragem de assumir o imprevisível deu lugar ao certo e garantido. Obviamente, não é tão ruim quanto parece, afinal, o Low nunca fez um disco ruim. Talvez seja mais fácil culpar a produção mainstream de Tchad Blake (Pearl Jam, Sheryl Crow), mas não foi o que fez diferença. Aliás, esse é o problema. Nada fez diferença. Trust soa como uma coletânea de grandes sucessos. Ótima, mas sem grandes surpresas. Nenhuma raridade ou gravação inédita. Ocasionalmente, o trio surpreende com sutileza e aponta para o futuro, como na beleza simplória de “In The Drugs”.
[+] Visite: www.chairkickers.com
 Do Make Say Think “& Yet & Yet” (Constellation) Em seu terceiro álbum, o sexteto de Toronto Do Make Say Think vem com todas as arestas aparadas. As experimentações realizadas ao longo do auto-intitulado álbum de estréia e do excelente Goodbye Enemy Airship the Landlord Is Dead, de 2000, tomaram formas mais delineadas e ganharam consistência. Se de alguma maneira a música eletrônica pudesse ser fisicamente orgânica, soaria como & Yet & Yet. Aqui, pedais de efeitos, vozes e metais são usados como apenas mais uma parte do conjunto, onde nada se sobressai. O álbum é mais importante que suas canções. Coisa rara. Apesar de não ser exatamente inovador, o som da banda soa original no atual cenário do post-rock, como um encontro improvável, mas secretamente desejável do krautrock do Can com o ambient de Brian Eno. Já que entramos no terreno das comparações, & Yet & Yet soa como um disco de funk do Godspeed You! Black Emperor, um disco de jazz do Mogwai ou ainda um disco de soul do Tortoise. Ou seja, um disco de rock. E um dos melhores do ano.
[+] Visite: www.cstrecords.com
 Amalgamated Sons of Rest “s/t” (Galaxia) O começo das carreiras de Jason Molina (Songs: Ohia) e Alasdair Roberts (Appendix Out) foi bem parecido. Ambos foram desacreditados por soarem demais como Will Oldham. Nada que os preocupasse, porém. Roberts resolveu montar uma banda após assistir a um show do Palace, um dos incontáveis projetos de Oldham. Foi a gravadora de Oldham, Palace Records, que trouxe os compactos de estréia dos outros dois. Dessa longa relação surgiu uma forte amizade, agora eternizada em cera. É divertido identificar quem está cantando, já que cada um lidera duas faixas. As vozes podem soar iguais a princípio, como foram exaustivamente criticadas, mas os mínimos detalhes pintam cores diferentes para cada uma. Como todo trabalho dessas mentes assustadoramente parecidas, o disco segue algumas premissas: fala da morte com naturalidade, tem instrumentação esparsa e mistura canções tradicionais a composições próprias. O ponto alto é a faixa bônus “I Will Be Good”, onde os trigêmeos se divertem num jogral infantil.
[+] Visite: www.galaxia-platform.com
 Tower Recordings “Folkscene” (Communion) Um bando de hippies em plena cidade de Nova York. Por mais estranho e/ou contraditório que isso possa parecer, ainda é a melhor definição para o Tower Recordings. Segundo seus integrantes (inúmeros e inconstantes, incluindo o genial P.G. Six), os discos da banda são concebidos na melhor tradição do folk inglês pagão, mas esse é apenas o ponto de partida. Como referência, são citados Incredible String Band e Tim Buckley, além da perturbadora trilha sonora de Wicker Man. Tomo a liberdade de incluir o genial Comus nesse balaio. Duvido muito que o uso de gravações de campo e a manipulação de fitas tenham sido utilizados naquela época, mas em Folkscene, nada parece fora do lugar. Drones hipnotizantes, batidas tribais, vocais orientais, repetição e psicodelia em níveis nunca dantes imaginados alargam qualquer definição de gênero. Um detalhe interessante é que raramente as canções passam de dois minutos, algumas nem deixam a casa dos segundos. Muita improvisação e estados alterados da mente.
[+] Visite: www.midheaven.com/communion
 Smog “Accumulation: None” (Drag City) Quando a gravadora Drag City colocou na íntegra a tosca fita cassete Cow como bônus do single de “Strayed”, deu início à recuperação da obra de um de seus mais ilustres pupilos. Naturalmente, cedo ou tarde uma compilação de lados b e raridades apareceria. E isso, Bill Callahan tem de sobra. Somando EPs e compactos em vinil e deixando de lado as cassetes do início de carreira, o Smog contabiliza quase quarenta músicas raras. Muitas delas estão largadas, presas a lançamentos com prensagens minúsculas ou perdidas nalguma coletânea de um selo de um país remoto. Nesse papel, Accumulation: None desaponta. São apenas doze faixas, incluindo sessões de rádio e a inédita “White Ribbon”. Mas como se decepcionar com essas doze canções? Só a seqüência “Real Live Dress”, “Came Blue”, “Little Girl Shoes” e “Cold Blooded Old Times” já valeria o disco. Para ser sincero, apenas a tristeza de “I Break Horses”, tirada de uma sessão para a rádio BBC, garante o disco. “I break horses, I don’t tend to them”.
[+] Visite: www.dragcity.com
 The Books “Thought for Food” (Tomlab) Nick Zammuto era um produtor de música eletrônica que vivia em Nova York. Dizem que era feliz por lá, lançando discos sob seu sobrenome. De uma hora para outra, largou tudo para se aventurar nos montes Apalaches, nada menos que 3500 quilômetros de escalada. Acabou na Carolina do Norte, como cozinheiro de uma pousada vegetariana. Sua paixão pelo folk de artistas como John Fahey foi revigorada. Do outro lado, Paul de Jong, com uma história não tão fantástica, mas altamente credenciado. Intérprete e compositor de música erudita, exímio violoncelista e compositor de música eletrônica para dança, teatro e cinema. Juntos, em suas horas vagas, fizeram o melhor disco de 2002. Estou enrolando porque é difícil explicar Thought for Food. Tudo é recortado e mastigado ao extremo. Os samples de voz são inacreditáveis (e usados com originalidade, por incrível que pareça) e as gravações de campo surreais. Glitch orgânico? Folk binário? Bluegrass digital? Talvez um pouco de tudo. Ou melhor, além, pós-tudo.
[+] Visite: www.tomlab.de
 Richard Buckner “Impasse” (Overcoat) O californiano Richard Buckner sempre foi um agregado da família Giant Sand. Nunca um membro per se, já que nunca participou efetivamente da banda, nem de suas crias. Mas sempre pôde contar com o apoio deles em seus discos, como indica a presença quase constante de Howe Gelb e da dupla Joey Burns e John Convertino, do Calexico. Para sair da reclusão de mais de quatro anos sem gravar material inédito, Buckner escolheu trabalhar sozinho, na segurança de seu estúdio caseiro. Assumiu todos instrumentos e deixou as baquetas nas mãos de sua esposa, Penny Jo. Apesar de trazer a característica voz sofrida e ríspida de Buckner, Impasse vem com melodias e temas confortantes. Claro que para cada “Hoping Wishers Never Lose” existe uma “Born into Giving It Up”, mas a voz de Buckner absorve todo sofrimento como quem parece dizer que tudo vai ficar bem no final. Com a ajuda de sintetizadores, vibrafones e mellotrons, Richard Buckner mostra que ser feliz não é tão difícil quanto parecia. Nem tão ruim.
[+] Visite: www.richardbuckner.com
 Acid Mothers Temple & The Melting Paraiso U.F.O. “Electric Heavyland” (Alien8) Caralho! Uma resenha de um disco como esse deve começar com um palavrão. Diante da ultraprolífica e curta carreira do coletivo japonês Acid Mothers Temple, pode-se identificar facilmente alguns padrões. A psicodelia está sempre presente, assim como as longas e improvisadas jams e duelos guitarrísticos. Electric Heavyland, trocadilho infame homenageando Jimi Hendrix, é puro barulho. Mais nada. Se algum dia você presenciar um ritual satânico ou um exorcismo, tenha certeza de que essa será a trilha sonora. As bandas que criaram o tal stoner rock deveriam ouvir isso aqui antes de cogitarem continuar suas carreiras. Acredito que mesmo os veteranos do Slayer se impressionariam. Os vocais já são suficientemente assustadores. Três músicas em pouco menos de uma hora, misturando krautrock, drone e metal. O encarte segue o alto padrão de qualidade da canadense Alien8, com fotos distorcidas, cores brilhantes e imagens de discos voadores e mulheres nuas, citando um famoso disco pirata do King Crimson.
[+] Visite: www.acidmothers.com
|