"four hearts in a can, speeding through the countryside and they're driving as fast as they can"

- four hearts in a can, smog

 


Bonnie Prince Billy “Master and Everyone” (Drag City)
Uma das coisas irritantes de ler em resenhas dos trabalhos de Will Oldham são críticas que tentam traçar um paralelo entre sua vida e obra. Em muitos casos, é realmente difícil desassociar as duas coisas, mas quem pode ter certeza senão aquele que o conhece? De vez em quando dá vontade de deixar as palavras se fundirem à música e se deixar levar pelo conjunto. Quem se importa se Will Oldham é incapaz de ter uma relação estável ao ouvir o manifesto antimatrimonial “Maundering”? O que importa é o que diz e como diz. Se for ou não verdade, a partir do momento em que se transforma em música, passa a ser verdadeiro. Parece simples, mas não é para qualquer um. Master and Everyone não é a continuação de Ease Down the Road, I See a Darkness ou qualquer outro disco sob qualquer outra alcunha. Master and Everyone é só um período da vida de Will Oldham. Uma época vazia e introspectiva, exageradamente religiosa e terrivelmente conformista. Se ele viveu isso tudo, não faz diferença. Vida e obra.

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Asa-Chang & Junray “Jun Ray Song Chang” (Leaf)
Meus olhos vão ficando pesados, então os fecho por alguns segundos. Segundos viram minutos suficientes para me fazer dormir. Sonho onde tudo é real, menos a realidade. A realidade é a fantasia. Uma pessoa do tamanho de uma criança me olha de longe, então flutuo lentamente em sua direção. Suas palavras não fazem sentido para meus ouvidos, mas entram neles carregadas de angústia. A princípio, pensava que a pequena criatura sofria. Talvez por ser tão diferente, pudesse se sentir deslocada. Mas não foram necessários mais do que poucos segundos para me dar conta de que o deslocado era eu. E que a angústia que a criaturinha emanava era pena. Ela sofria, nisso eu tinha razão, mas o motivo era eu. As lágrimas caíam lentamente de seus olhos puxados, enquanto suas palavras se tornavam cada vez mais incompreensíveis e ao mesmo tempo confortantes. Ela sofria não apenas por minha causa, mas em meu lugar. Foi só quando estendeu sua pequena mão para mim que pude perceber que isso era tudo e era só o começo.

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Johnny Cash “American IV: The Man Comes Around” (Universal)
O produtor Rick Rubin merece um prêmio por sua série American Recordings, ao lado de Johnny Cash. Pensando bem, ele deve ter ganhado vários. Enfim, logo na abertura da quarta seqüência, somos surpreendidos pela potente narrativa apocalíptica e a voz incrivelmente assustadora de um senhor de 70 anos na original “The Man Comes Around”. Cash está melhor do nunca. Em seguida, entra a marca registrada da série: versões de “clássicos modernos”, geralmente escolhas impensáveis no repertório do cantor. Cash toma para si “Hurt”, do Nine Inch Nails, encarnando a decadência com orgulho. Em “Give My Love To Rose”, outra sua, mas de 57, Cash mostra que baladas à moda antiga ainda funcionam. E chega. Em vez de “Rusty Cage” (Soundgarden), “Mercy Seat” (Nick Cave – este presente em outro grande momento do disco, duelando com Cash em “I’m So Lonesome I Could Cry”, pérola de Hank Williams) e “I See a Darkness” (Bonnie Prince Billy), temos Beatles, Depeche Mode e Sting. Esse Rick Rubin merece uns tapas.

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Cerberus Shoal “Mr. Boy Dog” (Temporary Residence)
O Cerberus Shoal vem desenvolvendo os conceitos de Mr. Boy Dog desde 99. Nada de mais, levando em conta que inúmeros discos já cozinharam por mais tempo. A diferença é que, nesse período, a banda não deixou de produzir outros trabalhos. Para ser mais preciso, o único disco – de cinco ao todo – não lançado nesse meio-tempo foi o álbum de estréia Farewell to Hightide, de 97. Tendo isso em mente, fica mais fácil compreender porque um disco com pouco mais de uma hora de duração vem em edição dupla. Um álbum desses carrega muita história: turnês, mudanças de formação, evolução musical. Só o tempo pode amadurecer experiências e vivências. Ultrapassando todos os limites que um rótulo impõe, o Cerberus Shoal embebeu-se em tribalismos e orientalismos, deixando uma banda de rock em segundo plano para deleitar-se em metais, acordeões, instrumentos percussivos, melodias ciganas e jazz cacofônico. Assim, parecem criar seu próprio espaço, em qualquer lugar do mundo, menos nos EUA, sua terra natal.

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