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 Dirty Three “She Has No Strings Apollo” (Touch & Go) Simplesmente por nos fazer entender o que realmente significa o Dirty Three, esse sexto álbum dos australianos garante seu lugar de destaque na carreira do grupo. Não que uma banda tenha necessariamente que significar algo. Mas agora podemos perceber com clareza que o Dirty Three não é apenas um grupo instrumental. Ou melhor, não é instrumental e ponto. Warren Ellis faz seu violino cantar. Mick Turner faz sua guitarra cantar. Jim White faz sua bateria cantar. Poucas vezes alguém transformou um instrumento tão convencional como uma guitarra ou bateria em algo tão seu, tão único. É por isso que imediatamente reconhecemos qualquer um deles em seus inúmeros projetos. Finalmente podemos perceber isso, mas apenas porque nos foi permitido. A intenção é tamanha que piano e baixo agora têm vez na banda. As canções são guiadas pela intuição e os instrumentos passeiam livremente graças à intimidade com seus maestros. Por mais individualistas que possam soar, fazem mais sentido quando estão juntos.
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 Microphones “Mount Eerie” (K) Quem tem acompanhado a carreira de Phil Evrum sob o codinome de Microphones só tem a certeza de encontrar o imprevisível. Seus discos são tão diferentes uns dos outros como se tivessem sido gravados por artistas completamente diferentes, mas ao mesmo tempo Evrum consegue deixar sua marca em cada um deles. Por mais criativos que sejam os fãs de Microphones, garanto que poucos imaginaram o que seria Mount Eerie. Um álbum conceitual de verdade, em pleno século 21, com pouco mais de 40 minutos divididos em cinco partes. As peças do jogo são o sistema solar, o sol e o universo em si. Mas o tema é a morte. Nada mórbido, porém. Evrum a enxerga apenas como um rito de passagem. Em sua peça de teatro introspectiva, lidera sua trupe de colaboradores freqüentes, que dessa vez ganharam papéis como o Universo (Calvin Johnson) e a Morte (Kyle Field). Depois de Mount Eerie, Evrum decidiu acabar com o Microphones. Agora ele responde por Mount Eerie e seus colaboradores são os mesmos. Enfim, conceitual.
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 Nick Cave and The Bad Seeds “Nocturama” (Mute) Nick Cave devia estar com uma saudade tremenda de ser roqueiro. Seu passado não nega, assim como sua ficha policial. Com a trilogia Murder Ballads, The Boatman's Call e No More Shall We Part, não há ex-Birthday Party que agüente tanta melancolia. Mas Cave não quer entregar o jogo assim, logo no início. Mudanças exigem transições. As três primeiras faixas de Nocturama (aliás, não tem nada mais gótico que esse título) emulam a segunda metade da carreira de Nick Cave. Melancólica, comedida e até depressiva, em uma certa luz, de um certo ângulo. Impecável. As coisas começam a esquentar na ótima “Bring It On” e seguem cambaleando por altos e baixos até os infindáveis quinze minutos de “Babe, I’m On Fire”, que me dão vontade de apagar tudo o que escrevi e jogar o disco pela janela. Em uma palavra: amador. Na verdade, eu queria falar muito mal desse disco, mas não dá. Como todo fã de Nick Cave, tenho que admitir que Nocturama é um bom disco. Mas e essa “Baby, I’m On Fire”, hein? Não precisava.
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 Comus “First Utterance” (Victor) Enquanto a maior parte dos fãs do folk inglês se contenta com os álbuns da Incredible String Band e Fairport Convention, os ávidos colecionadores de vinil se deliciam com preciosidades como o álbum de estréia do Comus. Agora relançado em formato digital, resta saber quem está disposto a cruzar essa fronteira. Na época em que foi lançado, em 1971, as poucas críticas foram isentas, apenas pelo fato do disco ser assustador demais para os críticos. Compreensível. First Utterance exige muita disposição do ouvinte. Apesar de trazer elementos de acordo com o que vinha sendo feito no folk progressivo da época, First Utterance tem corais femininos assustadores, violinos, flautas e percussão tribal, enquanto fala sobre temas como estupro, tortura e loucura. Os vocais masculinos são extremamente perturbados, ganhando mais dramaticidade quando contrapostos com as vozes do coro, que vão do angelical ao aterrorizante em questão de segundos. Repulsivo em alguns momentos, mas completamente cativante.
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 Songs: Ohia “Magnolia Electric Co.” (Secretly Canadian) A idéia era fazer um álbum duplo, com um disco acústico e outro elétrico, no melhor estilo Bob Dylan ‘66. Mas Pyramid Electric Co., gravado com o pessoal da finada Lullaby For The Working Class, ficou para trás e vai ganhar edição apenas em vinil. Jason Molina parece ter cansado da choradeira. Magnolia Electric Co. é um álbum de rock como os fãs nunca esperavam, e como há tempos não se ouvia. Badass. Molina toca com tanta energia como se encarnasse um Neil Young fazendo as pazes com o Lynyrd Skynyrd. Os momentos mais melancólicos trazem à memória os lamentos roqueiros de Bob Seger. Sua banda de apoio é a mesma da última turnê, o que deu a chance de gravar o disco todo ao vivo no estúdio. Outra surpresa agradável vem dos vocalistas convidados Lawrence Peters, com sua voz cristalina e experiente, e a bela inglesinha Scout Niblett. Nesses tempos pós-11 de setembro e pré-guerra, é cada vez mais difícil achar algo genuinamente americano que seja interessante. Molina conseguiu, mais uma vez.
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 Jackie-O Motherfucker “Change” (Textile) Tem gente por aí que quer porque quer que o Jackie-O Motherfucker seja o novo Godspeed You! Black Emperor. Não é tão simples assim. Arrisco-me a dizer que eles nunca o serão. Não por falta de competência, são apenas duas bandas completamente diferentes. Enquanto as maiores motivações do GY!BE vêm do post-rock e de trilhas sonoras, o Jackie-O bebe nas fontes do free-jazz e da música folclórica norte-americana. Enquanto uma aponta para o futuro pessimista, a outra mostra o passado memorável. “Change”, como o nome indica, representa uma mudança, apesar de podermos identificar claramente muitos elementos dos dois excelentes álbuns do grupo, Fig.5 e Liberation. A mudança não está na música em si, mas na transformação constante do grupo ao interpreta-la. A tradição e a memória da cultura dos Estados Unidos transporta-se para a contemporaneidade nas mãos do Jackie-O, reconquistando a liberdade e o sentido que um dia tiveram. Não gratuitamente, o álbum é dedicado ao bluesman Memphis Minnie.
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 Calexico “Feast of Wire” (Quarterstick) Sempre imaginei que num futuro justo o Calexico seria uma das grandes bandas americanas de rock alternativo, daquelas conhecidas e respeitadas por praticamente todo mundo, tal qual um Sonic Youth. Apesar da latinidade, seus álbuns pareciam concordar com essa teoria. Nada como um Feast of Wire para pegar qualquer um de surpresa. De início, ele engana, andando em terrenos conhecidos e apontando sutilmente para caminhos mais pop. Mas justamente quando já estamos dando aquele sorrisinho de “eu sabia”, caímos do cavalo. A banda passou dos limites, literalmente. Mergulhando de cabeça na música folclórica mexicana, apenas uma de suas influências até então, o Calexico apresenta seu futuro de olho no passado. Uma explicação plausível seria a convivência com o grupo Mariachi Luz de Luna, que vem acompanhando a banda há algum tempo. Mas o que antes era Sergio Leone, hoje é John Ford. Quem ouvir com atenção pode escutar rap, jazz e música eletrônica. E por incrível que pareça, soam mais autênticos.
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 Kimmo Pohjonen “Kluster” (Rockadillo) O acordeonista finlandês Kimmo Pohjonen passou anos observando e aprendendo com a cultura local antes de dar os primeiros passos por conta própria. A escolha por um instrumento não tão popular entre os jovens é herança de seu pai. Tocou em mais de 65 álbuns, faz parte de diversas bandas dos mais variados estilos (seu último projeto, Kalmuk, reúne uma orquestra de câmara, dois percussionistas e um sistema de som quadrifônico). Tanta versatilidade lhe deu mais caminhos para seguir. Ele escolheu seguir por todos. O acordeão é uma extensão de seu corpo, como faz questão de frisar em suas capas de discos. Sozinho no palco, com um acordeão enorme no colo e um microfone de telefonista, é cercado por pedais de efeitos e racks de samples. Parece olhar para o instrumento e consultá-lo sobre o que tocarão. As notas vão e voltam como um tema de trilha sonora. A repetição e os ecos dão a sensação de um sonho agitado, algo como um pesadelo do qual não queremos acordar, tão ameaçador quanto instigante.
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