"four hearts in a can, speeding through the countryside and they're driving as fast as they can"

- four hearts in a can, smog

 


Cat Power “You Are Free” (Matador)
Entre o fabuloso Moon Pix e You Are Free passaram-se quase cinco anos. Nesse meio tempo, Chan Marshall lançou apenas um álbum, o auto-explicativo The Covers Record. Foi também nesse período que os brasileiros puderam contemplar as apresentações ao vivo da Cat Power. Ter passado por essa experiência ajuda muito a entender os discos da moça. Ela passa do blues ao folk ao rock como quem muda de assunto antes de terminar a frase. Pergunta e responde enquanto a gente ainda está pensando em abrir a boca. Sozinha e à sua maneira, geniosa e introspectiva, Marshall fez seu melhor disco até agora. É bom assim. “Free” é a nova “Cross Bones Style” e ninguém me tira isso da cabeça. “He War”, a música de trabalho, dispensa qualquer equipe de marketing. Os boatos sobre as participações de Eddie Vedder (emulando assustadoramente o Smog Bill Calaham) e Dave Grohl foram muito exagerados. Eles estão presentes, mas You Are Free é de Chan Marshall e ninguém tasca. Ou melhor, You Are Free é Chan Marshall.

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MIMEO & John Tilbury “The Hands of Caravaggio” (Erstwhile)
O coletivo MIMEO, sigla para Music in Movement Electronic Orchestra, é uma criação de Keith Rowe, também integrante do AMM, influente trio vanguardista britânico que desde os anos 60 leva a erudição do minimalismo de encontro ao acaso do jazz. Entre seus onze integrantes estão grandes nomes da música improvisada européia como Rafael Toral, Kevin Drumm, Phil Durrant, Jérôme Noetinger e Marcus Schmickler. Para esse terceiro álbum, também gravado ao vivo, Rowe recrutou John Tilbury, seu parceiro de AMM. A proposta inicial do disco é traduzir em som um fragmento da recém-descoberta pintura “A Captura de Cristo”, do mestre italiano Caravaggio. O piano delicado de Tilbury é acolhido carinhosamente pela orquestra de guitarras, sintetizadores e laptops, mas o maestro Rowe ainda tinha um truque na manga. Chamou o pianista Cor Fuhler para tocar junto com Tilbury, mas do lado de dentro do piano, como se a improvisação por si só não fosse um desafio. O resultado não poderia ser mais belo e complexo.

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Iron & Wine “The Creek Drank The Cradle” (Sub Pop)
Diz a lenda que Samuel Beam, um introvertido professor universitário de Miami, usava suas horas vagas tocando e cantando em seu gravador portátil de quatro canais até que um dia decidiu enfiar algumas fitas num envelope e mandar aos cuidados de um dos chefões da Sub Pop. Alguns meses depois, The Creek Drank The Cradle estava nas prateleiras de todo país. A história é interessante, mas desvia o foco das composições de Beam, as verdadeiras estrelas do Iron & Wine. Isso sem contar o fato de que o rapaz domina o violão, guitarra em slide, banjo e ainda por cima canta bem. Beam carrega em suas melodias a tradição sulista norte-americana do folk, blues e gospel, sempre com um toque sutil de indie-rock e soft rock. Nick Drake é uma de suas obsessões, Neil Young uma das óbvias comparações. Seu gosto pelas baladas apalachianas o aproxima de Will Oldham, sua psicodelia caseira nos traz à memória Jeff Mangum e seu Neutral Milk Hotel. Mas na verdade mesmo, esse disco lembra Grenade pra caralho.

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Jan Jelinek & Computer Soup “Improvisations and Edits, Tokyo 26.09.2001” (Audiosphere)
Como todo lançamento da Audiosphere, junção dos selos belgas Audioview e Sub Rosa, Improvisations and Edits, Tokyo 26.09.2001 foi gravado ao vivo. O artista alemão Jan Jelinek promovia no Japão seu excelente Loop-Finding-Jazz-Records, colagem de trechos de discos de jazz dos anos 60 e 70. Fã de longa data do trio local Computer Soup, Jelinek os convidou para subir no palco com seus laptops. O resultado do álbum é a versão editada desta apresentação, uma espécie de melhores momentos. De início, Jelinek mostra sua especialidade e monta uma suave linha melódica com fragmentos de trompetes, enquanto os japoneses acompanham com cliques e batidas mudas. À medida que o som se desenvolve, mais elementos são experimentados, soando como jazz e videogames. O álbum segue com climas e sonoridades indo e voltando, nos lembrando sempre que as faixas que estamos ouvindo fizeram parte de algo maior. Os resultados finais nos satisfazem, mas deixam no ar a curiosidade de enxergar os caminhos que fizeram.

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