"four hearts in a can, speeding through the countryside and they're driving as fast as they can"

- four hearts in a can, smog

 


Sunburned Hand of the Man "Jaybird" (Manhand)
De uma hora para outra, o nome Sunburned Hand of the Man passou a ser citado em todas publicações, listas de discussão, zines, informativos ou qualquer outra coisa relacionada à música experimental. O culpado atende por Headdress, único álbum do grupo que burlou o círculo do CD-R, mesmo assim, em vinil. Foi suficiente para colocar o grupo em evidência. Ainda que Headdress seja um ótimo disco, os verdadeiros tesouros se encontram em cópias caseiras. Jaybird é o terceiro álbum de uma série de cinqüenta, em andamento. O tema aqui é o groove, com tudo que se tem direito: baixos devastadores, batidas hipnóticas e guitarras cíclicas. Uma pitada de blues ali, duas de rock psicodélico ali e muito krautrock completam a receita, como uma sessão de improviso imaginária entre Funkadelic e Can. Não, isso não faz jus à magnitude do disco. É algo como Grateful Dead e Sly & the Family Stone tocando juntos com Amon Düül em Munique, num fim de semana em 1969. É mais ou menos isso. Drogas, muitas drogas.

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Sunburned Hand of the Man "Wild Animal" (Manhand)
O Sunburned Hand of the Man surgiu de um coletivo de músicos de Massachussets que deu origem a grupos como No Neck Blues Band e Suntanama, entre outros, com quem dividem alguns integrantes. Os discos são distribuídos pela própria banda em tiragens minúsculas e completamente artesanais, com desenhos, colagens e tipografia únicos. Informações sobre o grupo, nomes das músicas ou qualquer tipo de dado é virtualmente impossível de descobrir. Simplesmente encontrar os discos já é uma tarefa árdua. Wild Animal é o quarto volume da saga. O groove recebe uma dose cavalar de morfina e o krautrock anda por outras pradarias, trazendo à mente toda a cena sueca, com bandas inacreditáveis como Älgarnas Trädgård e Parson Sound. Elas passaram a existir depois que Terry Riley visitou a terrinha e em 1967 isso se chamava Velvet Underground. Acho que pode ser entendido pelo contexto, mas é bom deixar claro que estamos falando de seções de livre improviso com vinte minutos em média. Drogas, muitas drogas.

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Sunburned Hand of the Man "Mind of a Brother" (Manhand)
Olhando para um passado nem tão remoto assim (afinal, é apenas 1997) chegamos ao ponto inicial do Sunburned Hand of the Man. Mind of a Brother é o marco zero da série. Não importa a ordem em que forem ouvidos, é difícil acreditar que são discos da mesma banda mas acredito que seja essa a idéia. Se você for gravar cinqüenta discos, o mínimo que se espera é que eles sejam diferentes. Acontece que Mind of a Brother é a fundação. Não tem groove, não tem nada. Um disco fantasma com músicas assustadoras e improvisações sem músicos. As pessoas ainda estão a chegar, puxa uma cadeira, sossega. O pedal vem antes da guitarra, o baterista está atrasado. Ele chega, mas vem e vai como ondas de som cósmicas e etéreas. Eco! Ninguém responde. Isso é um saxofone? Aqui está o ritmo, onde ele sempre esteve. Você não consegue ouvir? A repetição faz a melodia se alguém deixar, mas não é isso que estávamos procurando então cai fora. Tudo tem um propósito, eu achava que isso era óbvio. Drogas, muitas drogas.

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Sunburned Hand of the Man "The Book of Pressure" (Manhand)
Antes de seguirmos adiante, é preciso registrar as imperfeições. Sejamos sinceros, só existe uma, mas é tão incômoda e inoportuna quanto poderia ser. Os discos nascem de sessões de improvisação, tal qual fizeram em sua época Faust ou os supracitados Amon Düül. Logo, há alguém na sala de controle munido de tesoura e cola, ignorante do estrago que faz. The Book of Pressure, o sexto volume da série, sofre desse mal tanto quanto seus companheiros. A banda está sem controle, deixa a fita rolar, deixa a gente ouvir. Abaixo as interrupções! Cortes abruptos, carnificina analógica, coito interrompido. O pastor castiga e liberta, afaga e apedreja. Tudo tem um preço. Você enxerga imagens, chora ou ri? Transporta-se para outro planeta ou você simplesmente tem vontade de ajoelhar e rezar? É assim que a música muda alguém. Basta ter a mente aberta e um bom coração, já dizia um percussionista. Por mais cruel que seja, é indispensável que todos entendam a necessidade da síntese. Drogas, muitas drogas.

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Tindersticks “Waiting for the Moon” (Beggars Banquet)
Não é qualquer banda que chega ao sexto álbum sem falhas no currículo. Obviamente, essa afirmação é discutível. Há uns que dizem que os discos do Tindersticks são muito parecidos entre si e outros que conseguem apontar as mínimas diferenças que os fazem especiais. Seja quem for, não é difícil chegar a um consenso sobre Waiting for the Moon. Os últimos têm a oportunidade de presenciar uma banda em evolução, mostrando suas experiências certeiras e revelando os caminhos surpreendentes que a trouxeram até aqui. Aos primeiros dá-se a chance de apreciar um grupo maduro que sabe justificar suas escolhas, ainda que essas não sejam tão inovadoras quanto se espera. Discos como esse nos ensinam que fazer da busca pelo novo uma constante pode nos afastar de encontrá-lo. O violinista Dickon Hinchliffe também sabe cantar, “4.48 Psychosis”, inspirada na peça homônima de Sarah Kane, é uma referência perfeita e o dueto com Lhasa de Sela orgulha Lee Hazlewood. Com discos como esse é só se deixar levar.

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Black Dice “Beaches & Canyons” (DFA)
Era uma vez uma banda que se dedicava ao mais puro barulho em pepitas de um minuto e meio de duração. Gritaria, distorção e destruição completa do kit de bateria. Lançaram dois discos pela Troubleman Unlimited, selo do pessoal do Unwound, o que diz muita coisa. Por outro lado, sempre mantiveram um pezinho no experimental. Nomes como Lightning Bolt, Merzbow e Boredoms freqüentemente funcionam como comparação. A pseudo-insanidade de Lou Reed em Metal Machine Music é sempre uma boa referência. Nada como um disco como Beaches & Canyons para acabar com preconceitos. Não que todas essas influências tenham sumido. Continuam aqui, mas disfarçadas, dormentes, ocultas. Novidades são colagens, gravações de campo, parafernálias eletrônicas e o uso do silêncio. Depois de anos aperfeiçoando o barulho, o Black Dice aprendeu a controlar o silêncio. Suas improvisações com batidas tribais e cânticos hipnóticos impressionam tamanha perfeição. Em suma, uma banda de grindcore que toca world music. Genial.

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Molasses “A Slow Messe” (Fancy)
A banda canadense Molasses, liderada por Scott Chernoff, não é mais um projeto paralelo do Godspeed You! Black Emperor. Apesar de dividir alguns integrantes com o GY!BE, Shalabi Effect e outras, o Molasses é uma banda de verdade. Levou dois anos para terminar as gravações do novo álbum, culpa da agenda de alguns ilustres participantes. O gênero é folk-drone, na falta de algo mais adequado. A Slow Messe vem aditivado com gravações de campo e fitas caseiras, mas não tenta dar um passo muito ousado em relação aos outros dois discos do grupo. O elenco de convidados é imaculável, trazendo de Chris Brokaw (Come, Codeine, Pullman) a David Michael Curry (Boxhead Ensemble, Willard Grant Conspiracy) a Thalia Zedek (Come), entre outros. Dois discos, 26 canções, metade delas instrumentais. O naipe de metais impressiona nos momentos de improviso, Chernoff reina nas baladas, o blues é celestial, o gospel é profano, as cordas são sutis porém tétricas. A Slow Messe é a cena de funeral num filme noir.

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Vários Artistas “Improvised Music from Japan Vol.5” (IMJ)
No momento em que a caixa comemorativa do site Improvised Music From Japan dá sinais de fadiga, surgem agradáveis surpresas no quinto volume da série. O guitarrista Kazuhisa Uchihashi tem em seu impressionante currículo participações em grupos como Ground Zero, liderado por Otomo Yoshihide, Altered States, Phantasmagoria e muitos outros, além de ter seu próprio selo, organizar festivais e trabalhar com teatro, dança, pintura e poesia. Um de seus projetos mais recentes chama-se Kam-Pas-Nel-La, que entre seus integrantes traz a vocalista Haco e a versátil compositora e harpista Zeena Parkins. O guitarrista começou sua carreira tocando folk e passou por estilos como jazz, rock e noise até se firmar na música experimental e unir suas facetas ao livre improviso e música eletrônica. A não menos inacreditável discografia de Seiichi Yamamoto o inclui em grupos como Nagisa Ni Te, Ruins e Boredoms, passando pelo folk, punk e noise. Suas três peças nesse disco são improvisações solo na guitarra.

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