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 Mono “One Step More and You Die” (Arena Rock) Há dois anos, quando o Mogwai lançava o fenomenal Rock Action, surgiam bandas que se diziam tão influenciadas pelo som dos escoceses quanto o Slint para os próprios. Uma delas foi a Explosions in the Sky, que acabou de finalizar as gravações do seu segundo álbum. A outra veio do Japão, pelas mãos de John Zorn, com o disco Under the Pipal Tree. É curioso o que apenas dois anos podem fazer. Enquanto o Mogwai lançou o medíocre Happy Songs For Happy People, seus pupilos os deixaram para trás sem piedade. Não há segredo algum, os ingredientes são os mesmos. A grande diferença está no modo de preparo. O guitarrista Takaakira Goto declarou que quanto menor o público, mais violenta a banda fica e então tudo o que quer é matá-los usando apenas sons. Vontade é o que não falta. O contraste entre a explosão de distorção e as delicadas paisagens sonoras é gritante, passando do ruído puro à sutileza do piano e violoncelo. Um disco atual porém nostálgico, para lembrar do tempo em que Mogwai era bom.
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 Comets On Fire “Field Recordings From The Sun” (Ba Da Bing!) A primeira canção de Field Recordings From The Sun, segundo álbum do Comets on Fire, traiçoeiramente arma uma isca para os ouvintes. Percussão tribal, sinos tibetanos e o clima hippie do improv de bandas como No Neck Blues Band e Jackie-O Motherfucker vão nos envolvendo e levando a mente a um estado entorpecido. Sem aviso, de sobressalto, uma parede de distorção e energia cai sobre nossas cabeças, enquanto Ethan Miller tenta se fazer ouvido aos berros. Esse choque não é prejudicial, muito pelo contrário, a mente desperta, ainda anestesiada. Isso, meus amigos, é pura psicodelia. Se eu falasse que esse é um disco do Acid Mothers Temple tocando covers de Stooges vocês acreditariam. Convidados como Ben Chasny do Six Organs of Admittance e Tim Green do Fucking Champs fazem a festa. Chasny protagoniza um grande momento no disco quando em meio à sua viagem acústica é agredido impiedosamente por uma nuvem de feedback que cresce a cada minuto para enfim se transformar numa tempestade elétrica.
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 Lavajato “ø mínimo recomendável” (Truma) O release do grupo carioca Lavajato indica que a banda (ou melhor, não-banda) tem entre zero e trinta e cinco integrantes, tocando guitarras, panelas, violão, baixo, ventilador, terra, rádios de pilha, computador, átomos, eletrodos, discman, animais, violino, scanners e tudo que produza sons. Soma-se à constante afirmação de não-música e temos algo realmente interessante nas mãos. A bandeira da antimúsica, erguida pelo primeiro álbum do grupo, Assim Como Tah (2001), carrega a falsa impressão de um pandemônio de cacofonia e barulho. Mas ø mínimo recomendável nos apanha de surpresa com melodias sublimes e entorpecentes mantras vocais. O uso da eletrônica é rudimentar e precário, com resultados intrigantes e surpreendentes, aproximando o Lavajato do coletivo paulistano LSDiscos. Nos fones de ouvido, o disco mostra-se admiravelmente mais complexo. O Lavajato ensina que para destruir a música é necessário absorvê-la e compreendê-la antes. E uma vez destruída, é preciso cria-la mais uma vez.
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 Vários Artistas “Improvised Music from Japan Vol.8” (IMJ) O oitavo álbum da caixa comemorativa do site Improvised Music From Japan segue o rumo do volume anterior ao aproximar a música tradicional local da vanguarda contemporânea. Michiyo Yagi direcionou sua habilidade ao koto, espécie de cítara enorme. Yagi trabalhou ao lado de grandes nomes do experimentalismo como Eugene Chadbourne e Zeena Parkins e criou o sensacional trio Hoahio com Sachiko M e Haco, além de fazer parte do grupo do onipresente Otomo Yoshihide. Em “Godan Ginuta”, Yagi é acompanhada do grupo de koto Paulownia Crush. Logo depois, Michihiro Sato impressiona com sua criatividade e técnica ao improvisar no shamisen, um tipo de alaúde de três cordas. Sua curiosa biografia inclui a expulsão da escola de shamisen após um mês, por pressão dos outros alunos que não conseguiam fazer o que Sato fazia, apesar de ter a metade da idade. Suas constantes apresentações nos EUA o levaram a John Zorn, que organizou gravações com ícones da vanguarda nova-iorquina, como Fred Frith e Ikue Mori.
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 Willard Grant Conspiracy “Regard The End” (Glitterhouse) Após o lançamento de Everything’s Fine, em 2000, o Willard Grant Conspiracy começou a apresentar sinais de cansaço. A banda sempre foi o vocalista Robert Fisher e o guitarrista Paul Austin, além de seus inúmeros convidados. A piada recorrente conta que se alguém diz ter tocado no grupo, provavelmente é verdade. Mas eles já não se entendiam como antes e a banda foi rumo ao limbo, carregando boatos sobre seu fim. Apesar disso, como brinca o título do novo álbum, Fisher seguiu tocando o Willard Grant Conspiracy sozinho e Austin tornou-se apenas mais um ilustre convidado. Mesmo com esse fardo, ou quem sabe graças a ele, Regard The End é indubitavelmente o melhor álbum da banda até hoje. Fisher está completamente à vontade e sua voz cristalina como nunca. Junto de Kristin Hersch e Chris Eckman (Walkabouts), entre outros, Fisher passa o folk celta pelo filtro norte-americano sulista e tem como resultado algo que só pode ser comparado ao que revivalistas como Bob Dylan fizeram na década de 60.
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 Ui “Answers” (Southern) Sabe toda essa agitação em torno de Nova York, o novo centro do rock no universo, coisa e tal? Deixa pra lá. Ou melhor, é tudo verdade. É só uma questão de saber para onde olhar. O Ui existe desde 1990 e nesse período lançou apenas dois discos. Os motivos para a pífia produtividade fonográfica são vários, mas destaca-se a preguiça de seus integrantes. Passou por uma fase eletrônica, indo do experimental ao pop, colaborando com nomes que vão de Techno Animal a Stereolab; esses renderam um novo grupo, o Uilab. Enfim, a banda deixou de ser um trio de baixistas e baterista e incluiu um guitarrista em sua formação. A eletrônica passou sem deixar seqüelas. Nos anos 80, bandas como Liquid Liquid e ESG queriam ser o que Can e Neu! foram nos anos 70. Hoje, bandas como o Ui mantém essa porta aberta. É que o pós-Tortoise chamou de pós-rock. Mas não é tão simples, é tudo sobre o groove. Pensando bem, é simples assim. Genial, um dos grandes discos do ano. E a capa é do cara do Liquid Liquid, porra.
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 Angels of Light “Everything is Good Here / Please Come Home” (Young God) Michael Gira é um sujeito que merece admiração. Durante quinze anos foi figura central no comando do noise vanguardista dos Swans. Publicou alguns livros, lançou discos de spoken word e cuida sozinho de seu próprio selo, a Young God, que traz em seu catálogo trabalhos de Devendra Banhart, Calla e relançamentos dos discos do próprio Swans, entre outros. Um dos seus atuais projetos atende por Angels of Light. Gira não se importa mais em ser figura central de coisa alguma e abre caminho para colaboradores que vão desde seus antigos companheiros de banda a jovens artistas de sua gravadora. Sua especialidade é transformar o que quer que seja – folk, country, rock, etc. – em temas sombrios, sem cair no gótico pejorativo. Sim, Michael Gira é um gótico clássico, teatral; sempre foi. Mesmo com tanta gente na sala, sente solidão e claustrofobia. Mas o que antes era apenas agressividade e raiva (porém altamente refinada, a ressalva é merecida) agora também é ternura, fragilidade e arrependimento.
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 Vários Artistas “Improvised Music from Japan Vol.7” (IMJ) Ao nos aproximarmos do final da maratona analítica da caixa que celebra o aniversário do site Improvised Music From Japan, o sétimo volume mostra algo que os sentidos ocidentais não estão exatamente preparados. Ironicamente, o intermediário é canadense. Brett Larner vive há muitos anos no Japão e sua especialidade é o koto, a maior das cítaras asiáticas, com treze cordas e pontes móveis e que ao longo do tempo passou a ser usada unicamente pelos japoneses. Seu olhar estrangeiro absorveu sem preconceitos a cultura local, sua fase de aprendizado lhe deu oportunidade de trabalhar com suas maiores influências e a curiosidade o aproximou de diversos artistas, como os já citados Toshimaru Nakamura e Taku Sugimoto. Na seqüência, Yumiko Tanaka mostra sua habilidade no shamisen, espécie de alaúde de três cordas, geralmente usado no tradicional teatro japonês de marionetes. Tanaka também fez parte de diversos grupos, incluindo Ground-Zero de Otomo Yoshihide e a versão local do John Zorn’s Cobra.
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 Animal Collective “Here Comes The Indian” (Paw Tracks) Graças a uma onda de lançamentos, a psicodelia voltou à moda. Nada melhor do que isso para tentar entender esse incompreendido termo. Antes de qualquer coisa, psicodelismo não é um gênero musical, de maneira alguma. Psicodelia é um estado de espírito, ou de mente, se você preferir. Posto isso, podemos aceitar a existência do Animal Collective e as singelas alcunhas de seus integrantes como Panda Bear e The Geologist. Here Comes The Indian é algo como o sexto ou sétimo álbum do coletivo, mas o primeiro a chamar a atenção para o grupo. Eles podem ser punks num momento e minimalistas em outro, num piscar de olhos. Viajam no improviso do krautrock enquanto perdem todos os parâmetros seguindo a trilha de miolo de pão deixada pelo Sun City Girls. Eles fazem música eletrônica quando querem. Cantam e nada mais quando querem. A mente controla o corpo e está fora de controle. Se a psicodelia é realmente um estado de espírito, o Animal Collective é uma religião e Here Comes The Indian uma bíblia.
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 Six Organs Of Admittance “Dark Noontide” (Holy Mountain) Já que o tema é psicodelia, nada mais sensato do que convidar Ben Chasny para se juntar a nós. Dark Noontide é o terceiro álbum de Chasny sob o nome Six Organs of Admittance. Sua obsessão por John Fahey e Blind Lemon Jefferson é vista sob a percepção alterada da psicodelia transformando suas canções em pequenas viagens lisérgicas pelo folk e blues. Ainda que tenha largado o violão pela guitarra elétrica, tudo contraditoriamente continua fazendo sentido. Rodeado de pedais de efeitos e um gravador caseiro, Chesny mostra os efeitos entorpecentes de drones, gravações de campo e orientalismos. É só fechar os olhos para sair do chão, nada precisa fazer sentido como Syd Barrett nunca fez. Chasny descobriu que a voz também serve para cantar e é agraciado por esse dom. Você tem o Grenade, olhe ao redor. Não custa nada. Somos todos cavalos, domados ou não. Para ter uma revelação espiritual basta querer. É incrível pensar que tem gente que ainda usa drogas para isso. Não foi para isso que eu vim.
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 Diagonal “Model to Deceive” (Highlight Sounds) Sempre acreditei que era preciso prestar muita atenção para perceber os detalhes que fazem do Diagonal uma banda diferente das demais. Suas apresentações ao vivo são espetáculos de técnica e imprevisibilidade, daqueles que se perde inúmeros detalhes num simples piscar de olhos. Model to Deceive, segundo álbum da banda, acaba com toda idéia pré-concebida sobre o Diagonal. A verdade é que não é necessário prestar tanta atenção para perceber o quanto a banda é especial. São experiências diferentes. Não há maneira certa de ouvir o disco pois ele soa novo a cada audição. Para começo de conversa, o baixo foi praticamente abolido. A bateria não-linear é tão livre quanto as três guitarras. Sim, temos vocais e isso é só mais um detalhe. Aliás, numa segunda análise, os detalhes são tantos que é impossível segui-los todos ao longo do álbum. Dizem que é impossível prever algo além do imprevisto e não há quem possa dizer melhor. Model to Deceive é mais um largo passo em direção à tortuosidade ideal.
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 Vários Artistas “Improvised Music from Japan Vol.6” (IMJ) O sexto volume da caixa comemorativa do site Improvised Music From Japan abre com três composições de Aki Onda. Músico e compositor autodidata, Onda se destacou graças a seus experimentos com fitas cassete. Relatos sobre suas apresentações ao vivo expõem o choque sensorial de vê-lo manipulando diversos gravadores simultaneamente. As três peças apresentadas aqui foram construídas apenas com efeitos sonoros e gravadores de cassete. Entre seus colaboradores estão Nobukazu Takemura, Ikue Mori e Blixa Bargeld. A história de Kazuo Imai é impressionante para dizer o mínimo. Guitarrista fascinado por jazz e música erudita contemporânea, Imai tinha Masayuki Takayanagi como mestre, tornando-se o primeiro e único aluno a se formar em sua escola particular, treze anos após a primeira aula. Nesse meio tempo, Imai foi integrante honorário do lendário Taj Mahal Travellers. Por fim, o Incapacitants extravasa frustrações rotineiras de um funcionário público e um caixa de banco em forma de puro barulho.
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