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 The Silver Mt. Zion Memorial Orchestra & Tra-la-la Band With Choir “This Is Our Punk-Rock, Thee Rusted Satellites Gather +Sing,” (Constellation) Em seu terceiro álbum, o Silver Mt. Zion enterra no passado o estigma de ser apenas mais um projeto paralelo do Godspeed You! Black Emperor. Dessa vez não mudaram de nome, mas ganhamos um complementar “With Choir”. É a grande pista para decifrar This Is Our Punk-Rock. O coral amador formado por cerca de 20 amigos da banda é somente o pano de fundo para o guitarrista Efrim Menuck soltar a voz. Um grupo de pessoas de opinião política tão forte, apesar de recluso e conseqüentemente silencioso, acabaria cedo ou tarde mostrando o que tem a dizer. Aqui temos tópicos que vão desde a supremacia das empresas multinacionais, passando pelo imperialismo ocidental até vigilância militar na América do Sul e Oriente Médio. Nada é gratuito ou mastigado, mas dito de maneira a nos fazer refletir. Os complexos arranjos ganharam consistência graças à presença marcante do discurso, contrastando delicadamente com a rusticidade do coro ao ecoar de Glenn Branca a Pink Floyd. Ah, se todo punk-rock fosse assim.
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 Mt. Egypt “Battening the Hatches” (Record Collection) Quando ouvi Battening the Hatches pela primeira vez, estréia do Mt. Egypt, logo me veio a mente Neil Young. Sua temática gira em torno da natureza e espiritualidade, para o bem e o mal, trazendo à lembrança artistas contemporâneos como Bonnie Prince Billy e Iron & Wine. Como nesses casos, existe uma pessoa oculta por trás do nome Mt. Egypt, pequena montanha que acompanhou de perto Travis Graves crescer e fazer música. Se você conhece um pouco de skate, vai lembrar de seu nome. Tommy Guerrero não é o único. Graves acabou de deixar uma turnê ao lado do Flaming Lips para embarcar em outra com Willie Nelson. Não dá para ser mais legal que isso. Na faixa que intitula o álbum, Graves soa tão sozinho e desamparado quanto Neil Young em Déjà Vu, clássico do Crosby, Stills, Nash & Young. Suas músicas duram apenas o suficiente para nos tocar o coração sem machucar, contando histórias tristes para depois consolar. Travis Graves parece estar sempre cercado de amigos e família, mesmo quando está só.
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 M. Takara “M. Takara” (Submarine) O nome pode não soar familiar a princípio mas você já ouviu falar dele. Seja tocando com o Instituto, Cidadão Instigado ou Hurtmold, Maurício Takara está em todas. Com um estúdio a disposição, mostra como aproveita bem suas horas vagas nesse álbum de estréia. Absorve minuciosamente detalhes da sonoridade das bandas em que participa, passa o caldo pelo filtro pessoal e recolhe um híbrido de dub, post-rock e música eletrônica experimental. É importante lembrar que M. Takara é um disco solo e totalmente individual. Não poderia ser diferente quando até o nome da obra se funde com o do autor. Takara é o único integrante de sua banda (com exceção do Hurtmold Marcos Gerez em duas faixas), no controle de cada detalhe, instrumento, batida, sampler. Um projeto solo traz liberdade ao soltar amarras do cargo de membro de um grupo. Dessa forma, o baterista dá lugar ao percussionista e programador, a timidez do trompete o conduz ao improviso, onde os dedos passeiam soltos pelo teclado da escaleta.
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 Vários Artistas “Improvised Music from Japan Vol.10” (IMJ) Finalmente chegamos ao fim da jornada analítica da caixa que celebra os cinco anos do site Improvised Music From Japan. O décimo e último volume traz a tona um tema importante para a cultura tradicional japonesa: o teatro. A pianista e vocalista Kyoko Kuroda se une ao guitarrista Kazuhisa Uchihashi, esse devidamente dissecado no quinto disco da coletânea. A grande virada de Kuroda se deu quando descobriu a música Noh, especificamente criada para o tipo de teatro de mesmo nome. Foi criadora do grupo ORT, que unia músicos, como Otomo Yoshihide, e atores, transcendo gêneros ao reinventar musicalmente a obra de dramaturgos como Bertold Brecht. O contrabaixista Tetsu Saitoh, passou anos tocando free jazz até entrar de cabeça no tango de Astor Piazolla. Com essa bagagem, tornou-se parte do grupo de teatro TAO, liderando uma orquestra de instrumentos tradicionais japoneses em peças de Shakespeare e Garcia Lorca. Fim. Considerações finais? Uma só: pensou improv japonês, pensou Otomo Yoshihide.
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 Knife in the Water “Cut the Cord” (Glitterhouse) Há alguns anos acompanhei com curiosidade o Walkabouts migrar artisticamente de Seattle e buscar abrigo no velho continente. Achei que se tratava de um caso isolado pois não faz tanto sentido um estilo musical tão característico norte-americano como a música country longe de seu país de origem. Ou faz? O mais recente álbum do Willard Grant Conspiracy, lançado por um selo alemão, foi disco do mês de uma revista inglesa. Esse movimento existe há algum tempo e não dá sinais de fadiga. Cada vez mais bandas americanas que se expressam através do que pode ser chamado de música tradicional de seu país passam a existir somente fora dele, separados por um oceano. É difícil visualizar com clareza as conseqüências disso mas os perdedores são os alheios a discos como Cut the Cord, terceiro trabalho do Knife in the Water. Duelos vocais reverenciam Lee Hazlewood, melodias entorpecidas levam o Velvet Underground ao Texas enquanto viajam na linha do tempo do soul e gospel. Felizmente, há quem aprecie.
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 2 by Bukowski “Drink from My Bastard Grail” (Poeta Negra) A banda grega 2 by Bukowski chega ao segundo álbum após os maravilhosos EPs do ano passado, Tech Thrash e Doom/Metal (auto-explicativos como você pode perceber). Em resenhas geralmente são tomados por ingleses ou portugueses mas isso não importa, já que declararam diversas vezes que qualquer música produzida na Grécia é medíocre e preferem morrer a lançar um disco em sua terra natal. Folclores à parte, Drink from My Bastard Grail traz novidades no som do grupo. Na primeira faixa, “Chopperfuck”, a banda repete por três minutos um de seus típicos riffs toscos de heavy metal, sujo e quadrado, para enfim abrir espaço para a voz etérea de Karine Charff, da banda inglesa Amp, na primeira música do grupo com vocais. 2 by Bukowski é a versão lo-fi de Goblin e Dario Argento no mesmo pacote, ambient metal, sintetizadores distorcidos, melodias pastorais perturbadoras, ficção científica, terror trash e bom humor de bônus. Um lembrete deles: você não deveria ouvir música, desista, música é errado.
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 Satã Bárbara “Manual Prático de Eonismo” (LSDiscos) Satã Bárbara é um dos grupos da nova safra do coletivo paulistano LSDiscos, lar de artistas como Bolor 09 e HDJ. Um dos mais conhecidos grupos do coletivo é o finado Jerssons, que cedeu dois integrantes para a formação do Satã Bárbara. Travestidos (literalmente, diga-se) como Andrógino Indígena, Satã d'Eon e Margarida Max, defendem a androgenia apoiados pela teoria que a vê como o mais antigo arquétipo vivenciado pela humanidade, captado e experimentado apenas pela psique humana. Ainda dizem que o andrógeno não é aceito pela tradição judaico-cristã por supostamente ameaçar a idéia patriarcal de Deus. Dito isso, nada mais natural do que escolher o satanismo para expor as idéias. Manual Prático do Eonismo, estréia do grupo, mantém a sonoridade ao alto nível da teoria. Bateria eletrônica, samplers, teclados, pedais de efeito e o uso impecável de gravações de diálogos e transmissões de rádio e tv formam o verdadeiro conteúdo da banda. Isso sem contar ótimos títulos como “Herodes merrrmão”.
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 Vários Artistas “Improvised Music from Japan Vol.9” (IMJ) O penúltimo volume da caixa de aniversário do site Improvised Music From Japan revela Ryoji Hojito, um dos segredos mais bem guardados do improv japonês. Após 15 anos como pianista de jazz, descobriu os trabalhos de John Cage para piano modificado e tem feito os críticos passarem apuros ao classificar sua música. Cage tocava o piano normalmente ao mesmo tempo em que o transformava num instrumento de percussão. Hojito leva essa idéia adiante, enxergando o piano como um agregado de diversos outros instrumentos. Inquieto, ainda joga sua voz e instrumentos de sopro na mistura. Porém, seu grande desafio é achar o equilíbrio entre o piano e a parafernália que o envolve, invade e violenta. Nesse ponto, Hojito é incrivelmente bem-sucedido, demonstrando domínio total sobre o improviso dessa criatura indomável, quase como que prevendo o acaso. Nada menos do que genial. O disco ainda traz peças incríveis de Masahiko Okura e até uma intervenção de Peter Brötzmann. Ainda assim, Ryoji Hojito brilha.
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