"four hearts in a can, speeding through the countryside and they're driving as fast as they can"

- four hearts in a can, smog

 


Do Make Say Think “Winter Hymn Country Hymn Secret Hymn” (Constellation)
Vivendo à sombra do Godspeed You! Black Emperor e seus projetos, a banda canadense Do Make Say Think tem talento de sobra para brilhar por conta própria. Winter Hymn é o quarto álbum do grupo e indiscutivelmente o melhor até agora. As melodias são detalhistas e sombrias, as composições incrivelmente complexas e não-lineares e a execução precisa e energética. Ao mesmo tempo, as guitarras soam delicadas enquanto confrontam grooves de baixo distorcidos. A idéia dos hinos presente no título é levada ao extremo, criando micro sinfonias ora excitantes, ora solenes, mas nunca menos que grandiloqüentes. O sexteto faz excelente proveito de seus instrumentos de sopro, indo do improviso do jazz à composição erudita moderna num piscar de olhos. Apesar da sua essência predominantemente orgânica, o Do Make Say Think não tem receios de dispor sintetizadores e outros recursos eletrônicos em seu leque de opções, ganhando em ousadia e experimentação e trazendo uma surpresa a cada minuto. Extraordinário.

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Boxhead Ensemble “Quartets” (Atavistic)
O supergrupo Boxhead Ensemble surgiu na ocasião das gravações do documentário Dutch Harbor, sobre uma vila de pescadores no Alaska. A trilha sonora foi encomendada ao selo Atavistic, que se incumbiu de escalar artistas como Will Oldham, Jim O’Rourke, Douglas McCombs (Tortoise) e Ken Vandermark, entre outros, e assim nascia o Boxhead Ensemble. O sucesso foi tanto que o grupo partiu em turnê junto com o filme, tocando ao vivo durante as projeções. Essa fase rendeu outros dois álbuns, passando por diversas formações com nomes célebres. Desvinculando-se do cinema, veio Two Brothers em 2001, alardeado como a única resposta americana ao Godspeed You! Black Emperor. Quartets é o melhor dos dois mundos. Agora com integrantes do Wilco, Smog, Souled American e outros, o grupo divide o álbum entre composições exclusivas e trilhas para o documentário Smashing Machine. De qualquer maneira, queiram ou não, as canções do grupo evocam imagens e poesias, com histórias a contar e emoções a experimentar.

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Visite: www.atavistic.com





Sunburned Hand of the Man “The Trickle Down Theory of Lord Knows What” (Eclipse)
Vocês devem se lembrar de quando o Sunburned Hand of the Man invadiu esse espaço com quatro resenhas de uma vez há poucos meses atrás. Foi também em agosto desse ano que a banda surgiu na capa da revista inglesa The Wire, que os denominou representantes modelo de um movimento batizado pela publicação como New Weird America. O novo rótulo faz referência à obra de Greil Marcus que decupou as lendárias Basement Tapes de Bob Dylan, responsabilizando-as pelo revival da moribunda e renegada música de raiz norte-americana, leia-se country, blues e folk. Dá pra entender a importância disso? Ora, vocês podem dizer, não passa de um recurso jornalístico para vender revistas. Não importa. Está acontecendo agora, contra sua vontade ou não, e a escolha é somente sua em participar. Essa revolução vem de espírito livre, ocupando todo espaço vazio, sem pressa porque sabe que o futuro é inevitável. No fim do túnel há uma luz e há um outro túnel no fim da luz. O pior já passou, agora é hora de recomeçar.

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Hurtmold / The Eternals “s/t” (Submarine)
O Hurtmold surgiu em 1998 e nesse tempo lançou dois álbuns. A estréia, Et Cetera, ainda trazia resquícios das antigas bandas de seus integrantes, principalmente o rock na essência e algo de pós-hardcore. Cozido veio dois anos depois, em 2002, mostrando uma banda muito mais madura e autoconsciente em relação a sua música. A importância do vocal diminuiu e outras referências se tornaram mais claras, como o experimentalismo e o post-rock, também revelando um paradoxal apelo pop. No EP sem título dividido com a banda americana The Eternals, o sexteto paulistano parece atingir o que almejou desde seu nascimento. Gravado no mesmo ano de Cozido mas lançado apenas em 2003, o disco traz um Hurtmold seguro e preciso, sem impor limites às suas experimentações ou devaneios. O vocal não mais existe e a performance só não impressiona quem já os viu ao vivo. Ou melhor, a estes impressiona pela inacreditável exatidão com que reproduzem o material gravado. Ah, o lado do Eternals também é interessante.

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Visite: www.hurtmold.cjb.net





Matmos “The Civil War” (Matador)
Não faz nem dois anos que o Matmos reinventou a música concreta ao levar a ambientação asséptica das salas de cirurgia plástica à música eletrônica no inacreditável A Chance to Cut Is a Chance to Cure. Pouco tempo antes, em 1999, Martin Schmidt e Drew Daniel lançaram o quase desconhecido The West, que hoje pode ser compreendido como a semente do novo álbum. Se por um lado a dupla tira sons de fontes incomuns como peles de coelho, sistemas de alarme, geléia e sangue, por outro se rende a melodias seculares como marchas marciais, madrigais medievais, folk appalachiano e festivais renascentistas. Soma-se isso a batidas eletrônicas que parecem fora de contexto (num disco de música eletrônica, o que o faz mais surpreendente) e ritmos dançantes incômodos e invasivos e temos uma leve idéia do porquê de The Civil War ser um disco tão difícil de ser compreendido a princípio. As peças jamais se encaixarão, não importa quantas vezes ouvirmos. Superado isso a recompensa será extremamente generosa.

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Visite: www.brainwashed.com/matmos





Lightning Bolt “Wonderful Rainbow” (Load)
Fazer barulho é fácil, alguns devem pensar. Talvez seja mesmo. Mas fazer barulho soar tão bem é para poucos. E mais, fazer tanto barulho usando apenas baixo e bateria, sem efeitos, sem truques de estúdio, sem manipulação digital, só deve ser para Brian Gibson e Brian Chippendale. A impressionante “2 Towers” leva a crer que o impacto catastrófico de 9/11 foi reproduzido em estúdio, antes de deduzirmos que isso é provavelmente uma alusão às torres de amplificadores do baixista Brian Gibson. Ao seu lado, tocando freneticamente e em moto-contínuo, Brian Chippendale ainda tem fôlego para respirar e gritar através de um microfone de contato enfiado garganta abaixo, preso com fita adesiva e retalhos de tecido. O mais surpreendente talvez seja o fato de nos pegarmos assobiando o equivalente a refrões pegajosos de pura distorção ou reconhecendo que aquelas melodias brutais não fariam feio em pistas de dança. Wonderful Rainbow, terceiro álbum da dupla, é mais um para a lista de melhores de 2003.

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Tripsine “s/t” (Fuzzy Nebulae)
Pouco se sabe do Tripsine. Uma rápida passada de olhos no encarte lacônico do micro disco de três polegadas sem nome ou uma extensa pesquisa na internet trazem os mesmos parcos resultados. Mas isso na verdade não importa. O Tripsine é um projeto de Alexandre Gomes, fundador do selo carioca Fuzzy Nebulae, casa de artistas como Lunåsigh, Nslod e Sensorial Estéreo. Em comum dividem a paixão pelo shoegazer e space-rock dos anos 80, leia-se My Bloody Valentine dum lado e Spacemen 3 do outro. Influências nefastas à parte, o Tripsine classifica seu som como contos de fadas em um ambiente de silício, o que me parece bem apropriado. A diferença é que o projeto constrói suas histórias com elementos eletrônicos, ou seja, samplers, glitches e sintetizadores, trazendo à tona tanto referências extremamente atualizadas como ambient digital e as paisagens esterilizadas do post-rock de laptop quanto experiências pioneiras do gênero como Popol Vuh e Karlheinz Stockhausen. Trilha sonora para o dia-a-dia.

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Neil Campbell / Campbell Kneale “s/t” (Celebrate Psi Phenomenon)
Neil Campbell é integrante do grupo Vibracathedral Orchestra. Campbell Kneale é criador do selo Celebrate Psi Phenomenon e grava sob a alcunha de Birchville Cat Motel. Oceanos e continentes separam seus lares, Inglaterra e Nova Zelândia, mas ambos estão conectados por sua música. Ou melhor, como diz o release, são dois caras vivendo na mesma rua, no mesmo subúrbio, apenas em lados diferentes do globo. Como se o destino os aproximasse desde o nascimento, dando-lhes nomes parecidos e fazendo-os prosseguir pelos caminhos do drone, amadurecendo solitariamente o que viria a ser construído em duo. Por três anos trocaram fitas, mexeram e remexeram no trabalho um do outro, tiraram e acrescentaram, cortaram e colaram, adicionaram camadas até atingir a sonoridade hipnótica perfeita, como quem monta uma casa para passar o resto da vida. Os alicerces são sólidos e a estrutura é firme, apesar de construída numa floresta em dias chuvosos. Um universo em si, o mundo ideal onde somos todos bem-vindos.

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