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 Robert Wyatt “Cuckooland” (Hannibal) A biografia de Robert Wyatt é extensa demais para ser exposta nesse pequeno espaço. Mas nem sua carreira de baterista na banda de rock progressivo Soft Machine, nos anos 60, ou o acidente que o deixou preso a uma cadeira de rodas, faz afronta a seus discos. Escoltado por músicos do naipe de Brian Eno, David Gilmour e Paul Weller, Wyatt passeia pelas canções completamente alheio ao que acontece a seu redor e ainda assim soa naturalmente moderno e contemporâneo. Cuckooland carrega o sentimento de ter sido feito de uma maneira que a música pop havia se esquecido que podia se expressar. Como numa parábola bíblica, Wyatt mostra quem é o mestre e dá mais uma aula a seus pupilos. Ele é um baterista de 58 anos, que nunca deixou de tocar bateria por causa de algo tão irrelevante quanto suas pernas. Sua sutileza traz sofisticação ao ordinário, sua sofisticação traz originalidade ao trivial. Seu mundo engloba todos os outros mundos e as portas estão abertas. A nós, cabe a tarefa de compreendê-lo.
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 Six Organs of Admittance “Compathia” (Holy Mountain) Em seu quarto álbum como Six Organs of Admittance, Ben Chasny coloca os dois pés no chão. Suas canções estão mais consistentes, algumas chegando deliciosamente próximas da fórmula verso-refrão-verso. O experimentalismo e momentos climáticos, porém, não foram deixados de lado. Estão apenas mais sutis do que antes. Chasny figura soberano na capa do disco, em oposto aos desenhos abstratos e psicodélicos de antes, como se quisesse reforçar que essas canções são obra sua. O que mais me impressiona no trabalho de Chasny é a semelhança com a primeira fase do Grenade, quando Rodrigo Guedes pilotava sozinho seu gravador portátil. Trocamos Neil Young pela música indiana e a psicodelia se mantém intacta. Em Compathia isso fica mais evidente, com a voz de Chasny sempre em destaque. Ele é somente um temporão trazendo o movimento hippie aos tempos atuais. Compathia é a prece silenciosa, sua conversa particular com Deus. Tirando a participação de Ethan Miller e sua electric destruction guitar, claro.
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 Explosions in the Sky “The Earth Is Not a Cold Dead Place” (Temporary Residence) Na ocasião do lançamento do álbum que projetou o Explosions in the Sky, Those Who Tell the Truth Shall Die, Those Who Tell the Truth Shall Live Forever, foram incessantemente comparados a artistas como Mogwai e Godspeed You! Black Emperor. Não que seja algum demérito, afinal a banda é excelente no que faz, novidade ou não. Se o álbum anterior trazia sentimentos pessimistas e trágicos, The Earth Is Not a Cold Dead Place é a calmaria após a tempestade. Não sabemos o que o futuro nos reserva, mas passado o pior brota o otimismo e a esperança. Desde o título do álbum e das próprias canções, a sensação de conforto brilha na regra que rege o grupo, alternando ambientações climáticas e catarses de distorção. Aqui tudo é mais contido, como se os traumas do passado erguessem um muro de cautela e más recordações, impedindo nossa entrega incondicional. De tantas emoções conflitantes nasce amor ou ódio, mas nunca indiferença. Um daqueles discos que ganha cores diferentes de acordo com nosso humor.
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 Grenade “Splinters (2000*2002)” (Bay King) Por falar em Grenade, com três álbuns e um EP nas costas, Rodrigo Guedes cansou de tocar violão sozinho em casa e montou sua própria banda de rock. Não foi uma transformação tão drástica quanto quando deixou o barulhento Killing Chainsaw pelas baladas acústicas, mas uma grande mudança ainda assim. Transições como essa exigem um período de adaptação, finalmente exposto pela incrível coletânea Splinters (2000*2002). Esses dois anos viraram pouco mais de trinta minutos, onde testemunhamos Rodrigo despedindo-se aos poucos dos computadores, gravadores portáteis, loops de bateria, experimentos caseiros e todos outros elementos que o fizeram companhia durante os quatro anos em que foi o Grenade sozinho. A solidão o levou a experimentar alternativas para preencher suas canções, despertando sua habilidade natural em construir belos arranjos diante de severas limitações, só comparada à maestria de one-man-bands como Neutral Milk Hotel e Microphones. Despedida em grande estilo e que venha o rock.
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 Sun Kil Moon “Ghosts of the Great Highway” (Jetset) Nos anos que passou liderando o Red House Painters, Mark Kozelek era muito mais do que apenas um líder. Isso ficou em evidência nos últimos trabalhos do grupo, especialmente no engavetado e atrasado Old Ramon. Depois disso, Kozelek seguiu verdadeiramente sozinho, gravando versões para músicas do AC/DC e bancando o ator em filmes de Cameron Crowe. Sun Kil Moon é apenas mais uma banda. Tudo bem, uma banda com ex-integrantes do Red House Painters e American Music Club, mas ainda assim um veículo para os caprichos de Kozelek. Não que isso seja algo negativo, afinal dá gosto de ouvir o primor da fusão do seu trabalho solo acústico com as guitarras que soaram lentamente pela última vez nos anos 90. Suas obsessões estão como sempre à flor da pele, misturadas esquizofrenicamente como só a mente do artista pode permitir, divagando sobre velhos lutadores de boxe esquecidos e Judas Priest, passando por tragédias, romances, memórias de infância e outras experiências pessoais, numa única só tacada.
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 The Books “The Lemon of Pink” (Tomlab) A estréia da dupla The Books, Thought for Food, foi o grande disco de 2002. Uma mistura de música de raiz norte-americana e eletrônica de vanguarda nunca ouvida antes, pontuada por colagens meticulosas e gravações de campo impecáveis. The Lemon of Pink tem tudo isso, exceto o choque do desconhecido. Ao contrário do anterior, gravado em separado ao longo dos anos, Nick Zammuto e Paul de Jong montaram o quebra-cabeça juntos durante um ano. Nesse jogo as peças se encaixam harmoniosamente, mas não formam a imagem que está na caixa. A paisagem, mesmo estranha, é confortante e meditativa. Você percebe que aquele pedaço do lago não deveria estar na copa das árvores, mas parece tão natural que você acha que ele sempre esteve ali, desapercebido. Com o auxílio da cantora Anne Doerner, o grupo caminha para uma esfera mais pop, sem deixar de lado as minúcias da pesquisa sonora, o preciosismo da edição ou o experimentalismo na escolha de melodias e temas. Rótulos à parte, esse é o folk do presente.
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 Vibracathedral Orchestra “The Queen of Guess” (VHF) Em seu mais novo álbum “oficial”, o quinteto inglês Vibracathedral Orchestra revela mais um pedaço da sua personalidade. Sim, porque sua música nada mais é que o reflexo fiel do caráter de seus integrantes, sem truques ou maquiagem. Quanto mais tentam escapar do que foi destinado a eles, mais são consumidos por essa sina. Eles sabem que na música não há fórmulas para criar sentimentos e nenhuma forma de arte jamais mudará algo fundamental numa pessoa. De concreto, existe a ressonância e a escolha de usá-la ou não. A importância vital que têm bandas do krautrock como Amon Düül e Can é carregada hoje por essa nova geração de artistas da qual o Vibracathedral Orchestra faz parte. Ou melhor, eles podem ser considerados praticamente os únicos herdeiros genuínos do krautrock. Ainda que seja mais por destino do que por vontade, o grupo não espelha, mas acrescenta. A música oriental, os drones cósmicos e o improviso intuitivo fazem parte de seu caráter e a única maneira de evitar é não existir.
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 Rachel’s “Systems/Layers” (Quarterstick) Sexto álbum após um hiato de quase três anos, Systems/Layers é colaboração com o grupo novaiorquino de teatro e dança SITI Company. Essa relação vem de longa data, desde que a companhia passou a usar a obra do trio em ensaios e cursos de atuação. O disco acompanha a vida urbana de oito personagens durante um único dia, adicionando gravações de campo aos belíssimos e melancólicos arranjos orquestrais que caracterizam a música do Rachel’s. Além de contar com a orquestra de Louisville mais uma vez, o trio ainda escalou a cantora Shannon Wright e contou com a inusitada ajuda de seus fãs. Explico: o site da banda pedia gravações pessoais de sons que representassem suas vidas e seu ambiente, resultando numa enxurrada de CDs, mini-discs, fitas cassetes e até mensagens de celular, recebidas de todos os cantos do planeta. Apesar do grupo se inspirar em filmes imaginários para compor seu repertório, Systems/Layers leva o conceito tão adiante que sobrepõe qualquer limite entre realidade e ficção.
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