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 Cerberus Shoal “Chaiming the Knoblessone” (North East Indie) Um disco. Se tivéssemos que escolher apenas um disco para representar o nosso tempo para as gerações futuras, que explicasse as escolhas que fizemos, como e onde vivemos, que fim levamos e onde começamos, norte e sul, leste e oeste, cidades, países, continentes, planetas, constelações. Enfim, o Universo. Tudo é genérico e específico. Nossos olhos ardem porque precisamos desacelerar e ver o acidente. Eles levaram sete discos ou mais para entender, foi pouco. O coletivo norte-americano Cerberus Shoal transformou milhões de anos em setenta minutos e dezoito segundos. Um verbete por segundo, diferente a cada audição. Tudo o que sentimos, ouvimos, vivenciamos. Como num sonho a cores, as opções são infinitas, presas num espaço de cinco polegadas. Um mundo dentro de outro exatamente igual, mas a grama do vizinho é sempre mais verde. Não podemos, não devemos, o que torna tudo muito mais atraente. É fisicamente impossível, respeitemos ao menos essas leis. Pronto? Vamos, para bem longe. O disco.
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 Cedric Im Brooks & The Light of Saba “The Light of Saba” (Honest Jons) Cedric Brooks foi um dos mais importantes músicos do lendário Studio 1 jamaicano. A fase áurea do estúdio, durante os anos 60, tem os dedos de Brooks por todo lado. A essência é o reggae, sem dúvidas, mas o que o torna tão especial são seus acessórios. Vamos com calma. Naquela época, o reggae tomava a forma pela qual seria reconhecido até hoje: um balaio de jazz e funk, música latina e africana. Em uma viagem pelos Estados Unidos, o saxofonista encantou-se pela música de Sun Ra e foi convidado a se unir à orquestra, mas o nascimento de sua filha na Jamaica o impediu. A semente estava plantada. Em 1974 fundou sua própria orquestra, o Light of Saba, trazendo ao rocksteady elementos do free jazz e música indiana, escavando antigas raízes como o calypso e a rumba e experimentando com poesia e dança, além da música disco da época. Gravaram inúmeros discos que ganharam peso de ouro nas mãos de colecionadores até a coletânea The Light of Saba resgatar e compartilhar algumas incríveis pepitas.
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 Jennifer Gentle & Kawabata Makoto “The Wrong Cage” (Sillyboy) A banda italiana Jennifer Gentle viveu um sonho: produziu uma turnê de Kawabata Makoto e juntou-se ao ídolo no palco. Claro que eles gravaram tudo e tiveram a atitude altruísta de dividir com o resto do mundo. Mas surpreendente mesmo é o toque de Midas do guitarrista do Acid Mothers Temple. Não há um disco ruim em sua impressionante discografia. The Wrong Cage traz uma faixa solo de Makoto e seu sarongi indiano, além de duas canções do Jennifer Gentle com a participação especial do japonês. O post-rock dos anfitriões deixa de lado a sofisticação para embarcar numa viagem de rock’n’roll em estado primitivo. Cobrem o espaço deixado pelos solos de guitarra de um alucinado Jimmi Hendrix de olhos puxados, coberto de distorção e eco. A colaboração abre um portal no tempo, uma brecha no espaço que foi esquecida especialmente com a intenção de ser resgatada no devido momento. Cada gota de passado é vivida intensamente, assim cumpre a profecia. Há muito tempo perdido, esperando ser encontrado.
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 The Blithe Sons “We Walk the Young Earth” (Family Vineyard) A dupla Blithe Sons é mais uma cria do maravilhoso coletivo Jewelled Antler. Formado por Loren Chasse e Glenn Donaldson (respectivamente id Battery e Mirza, ambos do Thuja), o duo percorre as diretrizes naturalistas deliciosamente obsessivas do coletivo. We Walk the Young Earth é o terceiro disco do grupo e foi gravado ao ar livre em duas locações: numa ponte sobre um riacho e dentro de um abrigo da época da segunda guerra mundial, na costa californiana. O grande mérito do Blithe Sons é criar melodias adaptadas especialmente para esses cenários. Não estou falando apenas de paisagens sonoras, mas de sons específicos que reverberam perfeitamente no ambiente. Como se depois de um longo tempo observando ao redor, eles pudessem se fundir naquilo de maneira natural. Tudo se torna uma coisa única. O vento importa tanto quanto o violão, mais evidente em sutilezas como pratos submersos n’água. Chasse e Donaldson parecem assumir apenas a função de intérpretes. O resto fica por conta da natureza.
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 Sunroof! “Cloudz” (VHF) Matthew Bower é uma figura inquieta na cena britânica experimental. Sozinho, já assumiu diversas alcunhas, como Skullflower e Total, lançando literalmente centenas de discos. Isso sem contar as colaborações, que enfileira nomes como Vibracathedral Orchestra e Richard Youngs. Como Sunroof!, seu trabalho é organizado por alguns temas. Cloudz é sua coleção bienal de música ambient. Mas é preciso esclarecer que falamos do conceito de ambient tal qual foi concebido, isto é, Brian Eno. Antes de qualquer coisa, Bower é especialista em drone, habilidade adquirida a custo de muito krautrock. Em uma palavra: Neu!. Simples a princípio, mas que carrega consigo metade das bandas alemãs dos anos 70 que importam. É nesse ponto que Cloudz (ou mesmo o Sunroof!, diga-se) ganha consistência. Camadas e camadas de teclados, pedais de efeito, guitarras e ondas de rádio abrem uma porta no tempo e espaço diretamente para Düsseldorf. Não é um fardo fácil de carregar, convenhamos, mas para Bower não é problema.
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 Norfolk & Western “Dusk in Cold Parlours” (Hush) Por trás da alcunha Norfolk & Western, Adam Selzer sente-se seguro. O que antes era uma proteção tornou-se um lar, onde não está mais sozinho. Durante três discos Selzer construiu o cercado que circunda sua casa. Não são muros intransponíveis, mas cercas ornamentais ao redor do verde gramado, onde vive com a família que constituiu nesses anos. São felizes em sua vida simples e melancólica como o pôr do sol. A música espreguiça-se suavemente enquanto a fita rola, Selzer tem tempo de escolher um instrumento dentro da sala apinhada. Rachel Blumberg, baterista do Decemberists, conhece as manias do marido e troca olhares cúmplices antes de iniciar timidamente sua coreografia. Joey Burns e M. Ward aparecem; Selzer já conhece a história, acendendo a lareira para aquecer mais uma noite dionisíaca. Contam causos de vizinhos, amigos e pessoas simples do vilarejo como duas comadres que há muito não se viam. A noite invade a madrugada mas nada importa porque o amanhã já chegou e tudo continua bem.
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 V/A “Folk and Pop Sounds of Sumatra Vol. 1” (Sublime Frequencies) Inspirados por selos como Smithsonian Folkways e Nonesuch Explorer, entre outros, além do enorme acervo acumulado ao longo dos anos, o povo do Sun City Girls criou a Sublime Frequencies. Os três primeiros lançamentos trazem músicas do arquipélago indonésio: Bali, Java e Sumatra. Mas, como o próprio título aponta, as coletâneas da Sublime Frequencies não repetem o que os selos de world music estão cansados de mostrar. O folclore marca presença, bem como a música pop atual, compiladas de fitas cassete recebidas de presente, trocas e compras em Sumatra. E até mesmo uma espécie de peça de teatro, com narradora aos prantos e música melancólica ao fundo. Isso tudo através da lente do Sun City Girls dá em música cigana, cantos sofridos, drone, pop retorcido e outros ritmos, desenterrados num trabalho arqueológico de primeira. Não se pode negar que a distância cultural e geográfica maximiza nossa atração pela música de Sumatra, mas a qualidade das canções desse disco supera qualquer fronteira.
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 Black Forest / Black Sea “Black Forest / Black Sea” (Last Visible Dog) Durante seus curtos quatro anos de existência, o grupo norte-americano Iditarod manteve a freqüência de um álbum por ano. Explorou avidamente o folk inglês, de Incredible String Band a Pentangle. A execução perfeita trazia os requintes medievalistas redescobertos pelos britânicos. Ponto final. Em 2003, Jeffrey Alexander se juntou a Miriam Goldberg e nascia o Black Forest / Black Sea. Haviam trilhado caminhos parecidos, mas estavam prontos para mudar seus destinos. Essencialmente, um duo de violão e violoncelo. Abaixo da superfície escondiam-se pedais de efeito, gravações de campo, samples, baterias eletrônicas precárias, ruídos e ondas de rádio. Tomando o folk como ponto de partida, alternam-se pela música de câmara e o improviso. Como se isso não fosse estranho o suficiente, o auto-intitulado disco de estréia ainda brinca com extremos, fundindo o antigo ao contemporâneo, o silêncio ao ruído, o sofisticado ao simples, atingindo assim um resultado também antagônico, estranho e familiar.
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