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 The Unicorns “Who Will Cut Our Hair When We’re Gone?” (Alien8) Se você acompanha esse espaço, sabe que a gravadora canadense Alien8 tem forte presença por aqui. Focada na cena local experimental, mas menos xiita do que a Constellation, é lar de artistas como Polmo Polpo, Shalabi Effect e vários projetos paralelos do Godspeed You! Black Emperor. Com isso em mente, a primeira reação ao ouvir os Unicorns é péssima. Ah, as expectativas. Porém, assim que conseguimos deixar isso de lado, Who Will Cut Our Hair When We’re Gone?, primeiro álbum do grupo, revela-se uma ótima surpresa. Emprestando elementos do lo-fi norte-americano, indo de Pavement a Microphones, passando por todo o pessoal da Elephant 6, a banda resgata os sintetizadores analógicos com muita propriedade. Em alguns momentos, soam como se uma banda dos anos 90 viajasse para os anos 60 para tocar música de videogames dos anos 80, tudo isso num walkman com as baterias fracas. E para completar, canções sobre fantasmas e shows com fantoches, mendigos e sanduíches de geléia. Não dá para ser ruim.
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 Erik Friedlander “Maldoror” (Brassland) Após uma longa jornada passeando pelos mais variados estilos, principalmente jazz, música clássica e de vanguarda, o violoncelista Erik Friedlander chega a seu primeiro álbum solo. Maldoror é uma série de improvisações baseada nos Cantos de Maldoror, escritos no século 19 por Conde de Lautréamont, pseudômino do poeta franco-uruguaio Isidore Ducasse, uma das grandes influências dos surrealistas do século seguinte. O disco foi gravado numa única sessão, sem edições ou adições posteriores. Encontrando um meio-termo entre composição e improvisação, o produtor Michael Montes pinçou dez passagens do livro, entregando uma de cada vez a Friedlander, com algumas anotações como ponto de partida. Sua experiência diversificada o impede de ser radical nas experimentações, agregando a melodia e emoção que o texto demanda. Em uma interpretação instrumental de uma obra literária, Friedlander explora o violoncelo com tanta consciência que se pode sentir as palavras ocupando o vazio deixado pelas notas.
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 Califone “Heron King Blues” (Thrill Jockey) A banda norte-americana Califone formou-se das cinzas do Red Red Meat, conhecidos por romper a visão tradicionalista do blues. Na verdade, com o passar dos anos e dos discos, o Califone tornou-se o Red Red Meat, mas manteve sua essência. Heron King Blues, segundo álbum do grupo pela Thrill Jockey, leva-nos por caminhos inesperados. As canções foram todas compostas dentro do estúdio, em sessões de improviso e gravadas ao vivo. Depois, foram desmontadas e assimiladas nas versões que compõe o disco. Graças a esse processo, vemos o grupo e suas manias completamente expostos. Um pouco de hinos folk infestados de blues e country, outro tanto de ambientações sonoras experimentais. A grande surpresa vem das doses discretas de funk espalhadas ao longo do álbum. Apesar de se escancararem na safada “2 Sisters Drunk on Each Other”, passam a maior parte do disco desapercebidas, em linhas de baixo capciosas, soterradas debaixo de ruínas das lembranças daquilo que um dia formou a música daquele país.
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 Polmo Polpo “Like Hearts Swelling” (Constellation) O trabalho de Sandro Perri como Polmo Polpo conquistou reconhecimento através de suas minuciosas colagens sonoras, usando techno minimalista e microhouse como material para pinturas monocromáticas formadas por pinceladas hipnóticas repetidas incessantemente. De mudança para a gravadora Constellation, assumiu o lado mais orgânico de seus colegas de selo, como Silver Mt. Zion, com o uso de violoncelo, acordeão e instrumentos de percussão orquestrais, além de sua característica guitarra em slide. Suas pinturas ganharam cores, mas o material e a técnica continuam os mesmos. Dúzias de camadas mesclam ruídos, drones e batidas eletrônicas que, quando sobrepostos, causam uma antagônica sensação de conforto. Como um rádio sem antena, que enclausurado dentro das paredes cinzentas da megalópole, emite promessas da tranqüilidade distante em meio ao caos. Como um cartão postal de uma paisagem paradisíaca, jogado na intersecção de avenidas movimentadas, abre um portal de imagem e som. Como um sonho.
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 Keith Rowe & John Tilbury “Duos for Doris” (Erstwhile) Keith Rowe e John Tilbury respondem por dois terços do grupo inglês AMM, considerado por muitos o marco zero da música experimental. Apesar de estarem na ativa desde 1965 e vivenciado diversas formações e inúmeras colaborações, nunca haviam gravado como duo. A Doris do título é mãe de Tilbury, falecida a três dias do início das gravações, em janeiro de 2003, trazendo um clima melancólico dominante à obra. Em pouco mais de duas horas, a dupla dá uma aula de minimalismo e improvisação. Rowe utiliza sua guitarra apenas como suporte ao piano de Tilbury, colorindo os espaços vazios com efeitos eletrônicos sutis. Por sua vez, Tilbury tem toda uma sala para preencher, mas nem por isso a ocupa totalmente. Os dois apreciam ouvir um ao outro, bem como escutar cada nota partir do instrumento em direção à parede, chocar-se e mudar de direção até perder a força e finalmente calar. Nesse jogo que não vale pontos, o time em perfeito entrosamento tem Keith Rowe e John Tilbury. Os vencedores somos nós.
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 Jason Molina “Pyramid Electric Co.” (Secretly Canadian) Durante a gravação de Magnólia Electric Co., mais recente álbum do Songs: Ohia, lançado em 2003, falou-se que Jason Molina tinha material de sobra para dois álbuns e assim surgia Pyramid Electric Co.. Mas a história não foi bem essa. Um nome semelhante é o único fato que liga esses dois álbuns. Além de ser o primeiro disco que Molina lança sob seu próprio nome, ele também é a única presença no estúdio. Milhas distante do rock sulista de seu par, Pyramid se sentiria mais à vontade na prateleira ao lado de Ghost Tropic, de 2000. Talvez sejamos sugestionados pelo fato de que os dois álbuns foram produzidos por Mike Mogis, peça-chave na gravadora Saddle Creek e ex-integrante do Lullaby for the Working Class. Molina está desolador, sozinho com sua guitarra num espaço preenchido por sentimentos. Nós podemos ouvi-los. Dizem que Molina passava as noites compondo no estúdio e Mogis registrava nas manhãs as canções da véspera. Nós podemos senti-los. Nessa fração de segundo, ninguém está sozinho.
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 Esmerine “If Only a Sweet Surrender to the Nights to Come Be True” (Resonant) Esmerine é mais um dos projetos do pessoal do Godspeed You! Black Emperor, dessa vez cria de Bruce Cawdron e Beckie Foon, também integrantes do Silver Mt. Zion e Set Fire to Flames. Como sempre, seus companheiros de banda fazem aparições aqui e ali, garantindo no mínimo boa música entre pessoas que sabem tocar juntas. A base do som do Esmerine provém do violoncelo e da percussão suave e econômica, vez ou outra violentada pela bateria marcial. Em alguns momentos, a dupla lembra o Hangedup, também da turma, mas sem a mesma consistência. Por outro lado, brilha quando se deixa levar por uma versão deturpada de música de câmara, adentrando um terreno conhecido há muito pelo Rachel’s. A sábia decisão de evitar fórmulas, como crescendos hipnóticos e alternâncias entre partes calmas e barulhentas, deixou a dupla livre para compor com esmero e criar uma identidade própria, ainda mantendo a sonoridade característica das bandas do coletivo de Montreal. A semente foi plantada e a colheita promete.
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 Lazarus “Songs for an Unborn Sun” (Temporary Residence) Lázaro é o protagonista de uma das parábolas do Evangelho de São Lucas. Pobre e doente, passa seus dias nas ruas, faminto, sozinho e abandonado. Mendigava aos ricos, que por sua vez o negavam até seus restos. Porém, na morte somos todos iguais. No julgamento, Lázaro ganha os céus enquanto o homem rico é condenado às trevas. Trevor Montgomery escolheu bem o nome para apresentar seu trabalho solo. Ex-integrante do Tarentel, o guitarrista deixa a eletricidade e adota o violão como pano de fundo para suas baladas de desesperança. Sua voz tímida e extremamente frágil ecoa delicadamente, aos poucos. Gravado em casa, Songs for an Unborn Sun então passou pelas mãos de Marty Anderson (Howard Hello), que além de agir como produtor, adicionou backing vocals, teclados e instrumentos de corda. Se até Lázaro tinha companhia dos cães, Montgomery não fez mal em buscar apoio. O sofrimento está sempre a um passo de se tornar redenção. A mão que nada tem nos consola. E assim, Lazarus também foi aos céus.
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