"four hearts in a can, speeding through the countryside and they're driving as fast as they can"

- four hearts in a can, smog

 


Shalabi Effect “Pink Abyss” (Alien8)
Sam Shalabi é um gênio. Pronto, falei. A partir dele, podemos traçar a genealogia de toda a música canadense relevante nos dias de hoje. Tem conexões com todos, além de fazer parte de diversos grupos, sem contar suas infinitas aparições em discografias alheias. Resumindo, ele é um daqueles artistas que nos ofuscam com seu talento. Sua mais recente obra-prima é Pink Abyss, um disco que consegue harmonizar post-rock, trilhas sonoras, free jazz, música eletrônica, rock psicodélico, Burt Bacharat, música oriental, folk e improv. É duro imaginar tantos estilos juntos em acordo, mas a arte nem sempre faz sentido. Sob a liderança de Sam Shalabi, sua banda brilha. De sua imensa lista de convidados, destaca-se o vocal desolador de Elizabeth Anka Vajagic (preparando seu disco de estréia pela Constellation), o trompete empolgante de Charles Spearin (Broken Social Scene, Do Make Say Think) e o duelo febril entre as cordas de Genevieve Heistek (Hangedup) e Sophie Trudeau (gy!be, A Silver Mt. Zion).

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Trans Am “Liberation” (Thrill Jockey)
Passados dois anos e meio dos atentados terroristas nos EUA, o vagaroso retorno da postura política na música começa a transparecer. Infelizmente, o ataque em Madri torna o assunto atual novamente. Ainda que Nova York tenha sido a vítima preferida da mídia, a rotina dos moradores de Washington foi radicalmente afetada. É a deixa para Liberation, sétimo disco do Trans Am. Embora as visões políticas do grupo nunca tenham feito parte de seus discos, o tema se tornou muito familiar para ignorá-lo. É preciso muita habilidade para contestar as ações de seus governantes fazendo música predominantemente instrumental. Porém, o som do grupo deve muito à herança do Kraftwerk e às bugigangas eletrônicas dos anos 80, onde o homem versus máquina tem papel crucial. Samples e efeitos sonoros, mal usados, podem facilmente cair no óbvio. Apesar da descaracterização do discurso de George Bush soar um pouco atrasada, os poucos deslizes não comprometem. Afinal, o Trans Am sempre apreciou testar os limites.

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Harris Newman “Non-Sequiturs” (Strange Attractors)
De vez em quando, precisamos nos afastar para enxergar melhor uma situação. Olhando de Montreal, no Canadá, Harris Newman tem uma visão clara da música folk norte-americana. Uma simples emulação não exige tamanho comprometimento e por isso Newman vai além. Assimilando o ponto exato do qual John Fahey e seus comparsas no selo Takoma iniciaram o resgate e modernização da música folclórica dos Estados Unidos, Newman consegue criar composições completamente atuais, sem desprezar a tradição e história. Suas incursões em terrenos um tanto mais experimentais não são estranhas ao preciso dedilhado no violão, que por sua vez dão um novo sentido à palavra pastoral. Newman tem um bom lugar na cena de sua cidade, com diversas ligações aos artistas da gravadora Constellation. A participação do percussionista Bruce Cawdron (Esmerine, Godspeed You! Black Emperor) em certas faixas compactua com a visão retro-progressista de Newman, mantendo um perfil discreto porém certeiro em suas atmosferas. Genial.

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Espers “Espers” (Locust)
Após o inspiradíssimo disco Awake Like Sleep e a subseqüente turnê evocando os festivais itinerantes dos anos 60, o trovador Greg Weeks juntou-se a Meg Baird e Brooke Sietinsons para formar o Espers. Anglófilos assumidos, espelham-se em grupos como Comus, Fairport Convention e Pentangle, buscando inspiração nas mesmas fontes: o folk medieval britânico. Suas belas harmonias vocais e arranjos barrocos andam de mãos dadas com a temática pagã e a recém-resgatada psicodelia lisérgica. Violinos e violoncelos recuperam profundidade ao lado de flautas, harpas e outros instrumentos seculares, somente para serem devastados por solos de guitarra imersos em ácido. A paisagem de frugalidade idílica que permeia o álbum é preenchida sutilmente por sensações lúgubres aterrorizantes, típicas da idade das trevas, trazendo à mente, em certos momentos, a cultura que vivia à margem das cortes européias. Por outro lado, esse livre espírito do trio está em perfeita sintonia com a nova música norte-americana.

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Hala Strana “Hala Strana” (Emperor Jones)
Steven R. Smith é mais um prolífico integrante do coletivo Jewelled Antler. Além de gravar diversos álbuns sob seu próprio nome, marca presença em grupos como Mirza e Thuja. Seu mais recente projeto atende por Hala Strana. O auto-intitulado disco é o segundo do projeto, criado para acolher sua produção inspirada na música do leste europeu. Ávido pesquisador, Smith já gravou canções tradicionais de países como Romênia, Polônia, Croácia, Hungria e muitos outros, mas nesse álbum polvilha essas influências sobre suas próprias composições. Multiinstrumentista e também criador de novos instrumentos, Smith exerce o domínio que tem sobre essas ferramentas como se fosse mais de um. O detalhado estudo dessas canções folclóricas lhe concedeu conhecimento para cruzar o meridiano e aplicar métricas, escalas, técnicas e sonoridades seculares aos ouvidos ocidentais, aproximando-os da música de raiz norte-americana e até do experimentalismo moderno dos tempos atuais. Místico e exótico, porém familiar.

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Papa M “Hole of Burning Alms” (Drag City)
David Pajo já fez muita história. Como parte do seminal Slint, em bandas como Stereolab, Royal Trux, King Kong, For Carnation, coadjuvante em diversos projetos de Will Oldham, gravando álbuns clássicos como Millions Now Living Will Never Die, do Tortoise, e é só o começo. Claro que sua fase no Zwan deixou saudades dessa época, mas no meio-tempo ele criou o Papa M. Ou, se você preferir, M is the Thirteenth Letter, Aerial M ou simplesmente M. Obcecado por singles, David Pajo gravou e continua gravando incontáveis canções para inúmeros selos. Hole of Burning Alms coleta algumas pepitas surgidas entre 1996 e 2000, quando ainda não havia se deixado dominar pela música folk. Sua incrível desenvoltura lhe permite ir e vir entre gêneros: o pós-rock que ajudou inventar, as improvisações geradas de experiências em estúdio, a música eletrônica descaracterizada, uma simples banda de rock. Mas realmente impressionante é perceber que apesar de um histórico desses, ele poderia ter feito tudo sozinho.

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EZ T “Goodbye Little Doll” (Monitor)
Por trás desse estranho pseudônimo, surge a figura de Colin Michael Gagon, acostumado a brilhar por trás dos holofotes. Para quem gosta de ler os créditos nos encartes dos discos, é aí que a história começa a ficar interessante. Gagon é integrante da banda que acompanha Will Oldham, mas para seu próprio grupo escolheu Paul Oldham, além de dois integrantes do Anomoanon, liderado por Ned Oldham. No controle, ninguém menos que Bill Callahan, também conhecido como Smog. Somado às influências do rock norte-americano sulista do Songs: Ohia e à esquizofrenia lírica do Silver Jews, temos um sério problema de identidade. Deixando as piadas infames de lado, Goodbye Little Doll, álbum de estréia de Gagon, tem seus próprios méritos. Quer dizer, deve ter. É impossível se desvencilhar dessa constelação sem sofrer graves traumas. Dá pra ficar louco ouvindo Smog aqui, Will Oldham ali, Songs: Ohia acolá. Sinceramente, isso é bom demais. Fazer música sem se preocupar em ser original é um mérito e tanto.

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From Monument to Masses “The Impossible Leap in One Hundred Simple Steps” (Dim Mak)
Misturar música e política nem sempre dá bons resultados. Felizmente não é o caso do trio From Monument to Masses, que chega ao segundo álbum com The Impossible Leap in One Hundred Simple Steps. As mensagens estão por todos os lados: espalhadas pelo encarte, em samples cuidadosamente selecionados, nos insistentes vocais e, porque não, na música. Em sua lista de influências, citar Godspeed You! Black Emperor é mais uma referência política do que musical, apesar de divergirem na maneira de expor suas intenções. O silêncio de um é o extremo do outro. Porém, filtrando elementos de pós-punk, hardcore e rock progressivo, o trio se aproxima dos canadenses ao criar paisagens sonoras tão extensas quanto a urgência dessa fusão lhes permite. Seus cenários são densamente povoados, em certos momentos até demais, por infinitas variações instrumentais, virtuoses instantâneos e transições explosivas, entrecortadas por gritarias subversivas e discursos sóbrios. Política à parte, alguém vai de Diagonal?

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