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 Tortoise “It’s All Around You” (Thrill Jockey) É difícil crer que um grupo do calibre do Tortoise esteja apenas lançando seu quinto álbum. Muitos podem achar o crédito da banda superestimado, mas é inegável a contribuição deles na solidificação do gênero hoje conhecido como post-rock. Mesmo longe desses holofotes, discos como Millions Now Living Will Never Die (1996) carregariam extrema importância na história do rock por mérito próprio. Posto isso, a tarefa de resenhar um disco do Tortoise mostra-se um tanto complicada. Comparações são inevitáveis e, mesmo que It’s All Around You possa ser considerado um disco excelente, os momentos de brilhantismo e criatividade não passam de simulacros dos álbuns anteriores da banda. Não é rock ou música eletrônica, mas um meio termo desconfortável e impessoal. Porém, ainda é interessante ouvi-los pagar tributos à música brasileira e Ennio Morricone. Em It’s All Around You não há espaço para falhas e talvez essa seja a única delas. Mas não é culpa deles. Eles só ficaram bons demais no que fazem.
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 Tanakh “Dieu Deuil” (Alien8) Jesse Poe é uma figura enigmática. Em 2001, lançou Villa Claustrophobia, sua estréia sob o nome Tanakh. Segundo Poe, Tanakh não é uma banda, muito menos um codinome, mas um coletivo de artistas fazendo música improvisada. Uma rápida olhada no encarte revela uma impressionante lista de colaboradores, de Ben Chasny (Six Organs of Admittance) a David Lowery (Cracker), passando por diversos membros do coletivo Boxhead Ensemble e alguns integrantes da família Oldham. Poe é um ilustre anônimo e seus ilustres colaboradores não fazem nada mais do que lhe retribuir um favor. Em Dieu Deuil, o Tanakh organizou a casa. A música oriental e o post-rock foram para o quarto dos fundos, abrindo espaço para o folk britânico na sala de visitas. Está tudo lá, porém, como em Villa Claustrofobia. A ordem dos fatores altera o produto, quem diria. Os arranjos vocais revelam influência de artistas como Fairport Convention, alternando vozes masculinas e femininas, mas a genética norte-americana canta mais alto.
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 Múm “Summer Make Good” (Fat Cat) Quando o quarteto islandês Múm lançou seu primeiro disco, em 2000, ganharam a atenção da mídia e do público, talvez pelos motivos errados. Atraídos pela recém redescoberta cena musical islandesa, graças ao Sigur Rós, ou simplesmente pela banda das gêmeas da capa do disco do Belle & Sebastian, a surpreendente estréia Yesterday Was Dramatic, Today Is OK ficou em segundo plano. Com o passar dos anos, a popularidade da banda crescia, a medida em que seguia uma carreira interessante e produtiva. Summer Make Good chega com uma história fantástica sobre músicas escritas num farol abandonado num lugar remoto mesmo para os padrões islandeses. O frio está implícito, resta-nos esperar o isolamento e o silêncio. Dessa vez o frio está nos arranjos. O minimalismo virou pobreza. A voz infantil, econômica e sutil outrora, agora é onipresente e incômoda. Renunciar aos laptops por instrumentos convencionais não é uma escolha sensata para um grupo como o Múm. Afinal, eles são bons exatamente nisso. E só.
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 7 Magnificoz “Dictador Amor” (Ugly) Com Dictador Amor, o 7Magz chega ao seu segundo disco. A banda argentina residente no Brasil estreou com o álbum Per I Qualche Dollaro In Piu, em 2002, levando ao pé da letra o extremismo de Slayer e Bad Brains. Dois anos depois, a história mudou, mas só um pouco. As treze faixas do disco duram pouco mais de vinte minutos, mas há canções épicas, como “Alergico”, com praticamente quatro minutos de duração. Mais punk rock, menos hardcore. Usando essa fórmula, a banda causa surpresa com refrões assobiáveis, percussão tribal e até backing vocals femininos. Por outro lado, pérolas como “Satanic Pandemonium”, com oito segundos de duração (metade disso, na verdade), representam bem a experiência de assistir a banda ao vivo. Se você sempre teve o desejo de saber como seria um disco de death metal produzido por Phil Spector, Dictador Amor responde muitas perguntas. Vale a pena citar a arte do disco, também a cargo do grupo, que recentemente retornou a Buenos Aires, onde divulga o novo trabalho.
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 Devendra Banhart “Rejoicing in the Hands” (Young God) Michael Gira, além de manter uma carreira brilhante com sua música, tornou-se um grande revelador de talentos ao fundar o selo Young God. Em 2002, apresentou um moleque de 21 anos, de nome esquisito e álbum mais ainda, com canções que oscilavam em um minuto de duração, registradas em secretárias eletrônicas e gravadores portáteis. Apesar disso, é pouco provável não se encantar com a pureza de suas composições, entoadas pela voz que um dia refugiou Syd Barrett. Seguro, Devendra Banhart enfrentou o ambiente estéril de um estúdio convencional e gravou não menos que 57 canções, das quais 32 formarão os dois discos que lançará esse ano. O primeiro, Rejoicing in the Hands, é magnífico do início ao fim. Banhart obriga o dedilhado no violão a acompanhar sua voz sem rumo, dispersa na euforia de tantas histórias para contar. Essa urgência segue por todo o álbum, como se não houvesse tempo suficiente para dizer o essencial. Felizmente, há tempo de sobra para consagrar o gênio de Devendra Banhart.
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 Tape “Milieu” (Häpna) Sempre achei esquisito o termo folktronica, designado para classificar uma dissidência mais pastoral da já questionável Intelligent Dance Music. Salvo raras exceções, os artistas desse gênero têm tanto a ver com folk quanto têm com dance music. O trio sueco Tape é uma das exceções. Assim como o duo norte-americano The Books, o Tape monta suas composições a partir de destroços da música de raiz de seu país, nesse caso, as origens do folclore sueco. As semelhanças nas trajetórias dos dois grupos não param por aí. Milieu é o segundo álbum do trio, sucessor do aclamado Opera, de 2002, levando-os do experimentalismo radical para áreas um pouco mais familiares, aproximando-os da música pop. A música folk tem que ser orgânica, a interferência humana é essencial. Em Milieu, a música eletrônica não passa de coadjuvante diante da delicada instrumentação acústica e o meticuloso recorte de gravações de campo. Instrumentos harmônicos, como gaita e acordeão, completam a personalidade única do grupo.
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 Bonnie ‘Prince’ Billy “Sings Greatest Palace Music” (Drag City) Will Oldham é mesmo um cara fora de série. Sua escrita por linhas tortas converte qualquer coisa em algo extraordinário, até mesmo uma simples compilação de grandes sucessos. Em Bonnie ‘Prince’ Billy Sings Greatest Palace Music, Oldham deixou a seleção do repertório a cargo de seus fãs, numa votação via internet. Escolhidas as canções, partiu para Nashville, onde recrutou legendários músicos de estúdio da capital norte-americana da música country como banda de apoio. Finalmente, com essa estrutura, gravou novas versões para quinze de seus sucessos. O resultado, embora um tanto provável a princípio, revela-se surpreendente a cada audição. Os músicos contratados são imbatíveis em seu próprio jogo. Oldham mantém uma distância proposital, como um mero compositor, transbordando felicidade ao ouvir sua obra revigorada com interpretações tão genuínas e inspiradas. Um álbum incrível se decifra apenas diante dos que se dão ao trabalho de ouvi-lo. Cá entre nós, não é um esforço tão grande assim.
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 Tivol “Breathtaking Sounds of Tivol” (267 Lattajjaa) A gravadora 267 Lattajjaa é um daqueles selos com tiragens minúsculas, encartes artesanais e discos fantásticos de bandas que ninguém nunca ouviu falar. Felizmente (ou infelizmente, dependendo do ponto de vista), selos como esse agregam boa parte da música experimental finlandesa contemporânea. Breathtaking Sounds of Tivol, primeiro álbum do quarteto, é um miniCD com duas músicas e pouco mais de vinte minutos de duração. Pegando a atual onda de revitalização da psicodelia, o grupo segue os passos dos japoneses Acid Mothers Temple e junta a repetição do krautrock ao peso do rock dos anos 60. Alto e pesado, como deve ser. Breathtaking Sounds of Tivol soa como Neu! fazendo covers de Black Sabbath. Ou ainda, Deep Purple numa noite inspirada, criando “Smoke on the Water” duma jam, sem guitarras virtuosas ou solos de teclado. É quase heavy metal, mas não se deixe enganar. Como bônus, efeitos eletrônicos indecifráveis e mantras vocais completam o álbum. Deve ser um bando de hippies cabeludos.
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