"four hearts in a can, speeding through the countryside and they're driving as fast as they can"

- four hearts in a can, smog

 


Fennesz “Venice” (Touch)
Para chegar em Venice, o compositor austríaco Christian Fennesz passou três anos tecendo os conceitos que fizeram de Endless Summer um disco tão aclamado. Casos como esse são cada vez mais raros no urgente cenário da música eletrônica. Tamanho cuidado, porém, não o livrou de um acidente. Quase a um mês da data de lançamento do álbum, seu computador se voltou contra ele e Fennesz perdeu quase todos seus dados. Quase, porque um quarto do disco ainda estava lá. Sem choradeira, Fennesz terminou o disco com a lembrança que tinha dele e foi recompensado simplesmente com o melhor álbum de sua carreira. Colaboradores de outras épocas retribuem o favor, como Burkhard Stangl, membro do grupo de improviso Polwechsel. Exímio guitarrista, Stangl sintetiza a essência de Venice em suas participações, a folk “Laguna” e a shoegazer “Circassian”. Um disco experimental que não quer desprezar a melodia, onde a guitarra, ainda que nem sempre presente, tem papel fundamental. Ficou pequeno pro Kevin Shields.

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Visite: www.fennesz.com





Black Ox Orkestar “Ver Tanzt?” (Constellation)
O que seria de mim sem a Constellation? Essa pergunta, que ecoa em muitas mentes por aí, deveria ser feita todo dia de manhã, em frente ao espelho, como um mantra. A gravadora é uma instituição de modernidade e vanguarda na música canadense contemporânea. De seu catálogo impecável, o mais recente lançamento tem os dois pés cravados no passado. O folk judaico, também chamado de klezmer, há muito cruzou oceanos e influenciou boa parte da canção popular norte-americana. Do outro lado da fronteira, porém, o klezmer canadense se mantém fiel às raízes orientais, mas tampouco tão ortodoxo. O primeiro álbum da Black Ox Orkestar, formada por integrantes de bandas como Silver Mt. Zion e Sackville, passeia pela cultura dos Bálcãs, somando ao iídiche aspectos da música grega, turca e cigana, através de um filtro atual. O respeito pela tradição equilibra-se com a urgência da criação, dividindo o álbum entre canções arcaicas e composições originais, instrumentais e vocais. Melancólico, naturalmente.

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Visite: www.cstrecords.com





Skullflower “Exquisite Fucking Boredom” (Tumult)
O guitarrista Matthew Bower é uma peça chave da cena experimental britânica. Sua extensa discografia o conecta a artistas importantes como Coil, Vibracathedral Orchestra e Richard Youngs, além de também gravar como Sunroof! e Total. O Skullflower ressurge depois de um hiato de sete anos, como se nada tivesse acontecido. O grupo é daqueles que enumeram suas influências para segui-las a risca. Grande coisa, você pode estar se dizendo, mas não é qualquer um que mistura Black Sabbath, Terry Riley e Neu! sem perder a compostura. Das seis faixas de Exquisite Fucking Boredom, quatro fazem parte da suíte “Celestial Highway” e são elas que fazem o disco, o resto é enfeite. Um único riff roubado do livro de rascunhos de Tony Iommi mantém-se firme durante toda peça. Só para explicar melhor, o mesmo riff é repetido por mais de 40 minutos. Os acessórios fazem toda diferença. Camadas de efeitos de guitarra, teclados, artimanhas de estúdio, gravações de pássaros e ruídos inidentificáveis. Convulsivo.

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Visite: www.tumult.net





Ordinária Hit “Nota” (Independente)
O primeiro lançamento do grupo paulistano Ordinária Hit, Ordenado em Duas Vias (2002), destoava da mesmice do rock independente brasileiro desde a embalagem. Para começar, o pacote trazia um CD, um cassete e um pequeno livro. No som e no texto, a banda escancara suas opiniões políticas e simpatia pela contra-cultura. Uma banda com algo a dizer, enfim. Vale a pena uma visita na seção de links do site deles. O gosto pelo não convencional já se mostra evidente na escolha do formato para o novo álbum: um miniCD com quatro faixas e quatro capas diferentes. Sem vergonha de beber na mesma fonte de seus ídolos, gente como Sonic Youth e Fugazi, o quinteto vai direto aos ícones do pós-punk, leia-se Wire e Gang of Four. Mas o Ordinária Hit não se resume a isso. As composições de Nota usam gravações de campo e bases eletrônicas com resultados bastante surpreendentes. As letras, fragmentos do cotidiano urbano, passam sua mensagem sem perder a poesia, seguras da inteligência de seu público. Nota 10.

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Visite: www.ordinariahit.net





Animal Collective “Sung Tongs” (Fat Cat)
Comparado a outros coletivos, é humilde o grupo norte-americano Animal Collective, com parcos quatro integrantes. Entretanto, combinam-se em até 24 configurações diferentes. Em 2003, o impressionante Here Comes the Indian e o auto-explicativo Campfire Songs vieram com assinatura coletiva. Em Sung Tongs, foram escalados Avey Tare e Panda Bear, a bem-sucedida dupla de Spirit They’re Gone, Spirit They’ve Vanished. Em uma palavra: disco do ano. Cada audição é uma experiência única, é impossível absorver tanta informação de uma só vez. Quem já ouviu música em alguma ocasião, qualquer música, mesmo que de relance, vai se identificar. E mais, vai reencontrar tudo o que já ouviu na vida. Sendo assim, é inútil apontar referências. Ou será que é só comigo? Agora fiquei em dúvida. De qualquer forma, na minha conta veio krautrock sueco, folk inglês e algo irreconhecível de música brasileira, perdido entre Clube da Esquina e rock rural. Pode ser só isso mesmo. E se for, ainda é muito, muito genial.

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Visite: www.fat-cat.co.uk





Pelican “Australasia” (Hydra Head)
O quarteto norte-americano Pelican era apenas mais uma típica banda de heavy metal, até o dia em que perdeu seu vocalista. Forçado a ensaiar sem vocais, até encontrar um substituto, o grupo tomou gosto pela coisa e seguiu na música instrumental. Criado em Chicago, Meca do post-rock, o Pelican traz na bagagem referências atípicas para um grupo de metal, como Ash Ra Tempel e La Monte Young, ao lado de metal épico e rock progressivo. Australasia, primeiro álbum da banda, traça um limite entre a ambiência do post-rock e o peso do metal, criando seu lugar particular, e de grande destaque, dentro de um gênero recém-criado, ainda sem nome (já ouvi chamarem de drone metal, avant-stoner e instru-metal). Esse movimento vem se formando há uns anos, com a retomada de interesse por bandas como Black Sabbath e Melvins, impulsionada pelo barulho de Boris, Dead Meadow, Pharaoh Overlord e outros. Porém, Australasia coloca o Pelican num outro patamar. Se nasceu um novo gênero, esse é seu primeiro disco.

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Visite: www.hydrahead.com/pelican





Elizabeth Anka Vajagic “Stand with the Stillness of This Day” (Constellation)
Uma das melhores faixas do mais recente álbum do Shalabi Effect, Pink Abyss, apresenta a cantora Elizabeth Anka Vajagic. Naquele disco, sua voz acompanha uma melodia trip-hop orgânica, com ênfase no baixo e bateria. Agora, lançando seu primeiro disco solo, a cantora justifica a sábia escolha de Sam Shalabi. Sua voz necessita do baixo e bateria assim como o céu necessita do pôr-do-sol. Tudo ao redor apenas são desculpas para cantar, desde palavras até mesmo a música. Por sorte, Vajagic conhece boas desculpas. Sua banda de apoio conta com músicos do calibre de Efrim Menuck (gy!be) e Beckie Foon (Silver Mt. Zion), além do supracitado líder do Shalabi Effect e Michel Langevin, baterista da lendária banda de thrash metal progressivo Voivod. Sua voz, de timbre peculiar e presença dominante, exala drama a cada suspiro, trazendo a mente Diamanda Galas e Patti Smith combinadas numa espécie de versão feminina do Tom Waits. No limiar entre o blues e gótico, se alguém ainda sabe dizer a diferença.

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Superoutro “Autópsia de um Sonho” (Independente)
Criei enormes expectativas em torno desse disco, o primeiro da banda recifense Superoutro. A culpa foi de “O Castelo”, terceira faixa de Autópsia de um Sonho e meu primeiro contato com o grupo. Um instrumental impecável, passando dos seis minutos, uma pérola climática com cara de lado B do grupo norte-americano Explosions in the Sky. Quando consegui uma cópia do álbum, a primeira surpresa foi encontrar vocais por todas as outras faixas. A outra foi gostar deles. Apesar da minha declarada predileção por música instrumental, o vocal de Guga Ramos não é tão hostil quanto no caso do Hurtmold, tampouco é dissimulado a ponto de podermos considerá-lo um outro instrumento. Entretanto, é possível abstrair e apreciar a harmonia do conjunto. E que conjunto! Sonoridade consistente, arranjos criativos, pós-rock que não esqueceu do rock progressivo, belos crescendos e nada menos do que três guitarras. Explosão e delicadeza nessa impressionante estréia, de grandes referências e personalidade própria.

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