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 Black Dice “Creature Comforts” (DFA) Passaram-se dois anos desde que o Black Dice lançou o surpreendente Beaches & Canyons, causando um tremendo impacto ao transitar pelo barulho extremo e música étnica. Creature Comforts é o terceiro álbum do grupo, reduzido a um trio com a saída do baterista Hisham Bahroocha. Ainda assim, não foi dessa vez que a banda se rendeu à comodidade da bateria eletrônica, mesmo trabalhando com produtores acostumados a artistas como Fisherspooner e Liars. Num primeiro momento, o novo álbum apara delicadamente as arestas deixadas por seu antecessor, mas não leva muito tempo para essa sutileza revelar-se tão brutal quanto um ataque sonoro de ruído e distorção. Creature Comforts é sobre vida, mais especificamente, a criação de vida. O Black Dice criou algo indescritível sob o qual detém total domínio. Uma criatura orgânica que desenvolve completamente seu ciclo em apenas 43 minutos, em meio a circuitos eletrônicos. Depois disso, ninguém sabe. A criatura está à solta. Numa palavra: Throbbing Gristle.
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 P.G. Six “The Well of Memory” (Amish) Em seu segundo álbum solo, o multi-instrumentista Patrick Gubler joga luz sobre as teorias do discutível novo estilo criado pela revista inglesa The Wire: new weird America. A nova América esquisita é 100% inglesa. P.G. Six já está nessa há pelo menos dez anos, parte do fundamental grupo nova-iorquino Tower Recordings, pioneiros a mesclar o folk britânico a improvisações jazzísticas e psicodelia. The Well of Memory está no meio do caminho entre o revisionismo de Incredible String Band e Pentangle e a pós-psicodelia dos artistas ligados a Canterbury Scene (Soft Machine, Robert Wyatt, etc). Se é preciso citar referências atuais, o experimentalismo e resgate quase arqueológico de Gubler traçam paralelos entre as obras de Richard Youngs e Alasdair Roberts, ambos britânicos. Essas fontes não tiram mérito dos artistas norte-americanos, de maneira alguma. Por outro lado, referências cruzadas e filtros culturais só acrescentam à música, possibilitando o surgimento de algo autêntico e original.
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 Sixtoo “Chewing on Glass & Other Miracle Cures” (Ninja Tune) Até onde minha memória permite, é a primeira vez que escrevo sobre um disco de rap. Não é dos meus estilos favoritos, claramente. Chewing on Glass & Other Miracle Cures, quarto álbum do produtor canadense Sixtoo, é um disco diferente. Primeiro: quase não tem vocais. A voz, quando usada, é apenas mais um instrumento. Aliás, uma reflexão. Pode-se falar em rap instrumental? Acho que não. Afinal, rap é uma sigla de rhythm and poetry. Onde está a poesia? Polêmico. Bom, voltando ao disco, sobrou pouco do hip hop que colocou Sixtoo no coletivo Anticon. Agora é a vez do jazz, funk e o rock psicodélico se sobressaírem, sempre com uma dose certa de experimentalismo. Mas os grandes trunfos do mano de Montreal são os improvisos em estúdio com músicos locais e as colagens dessas sessões. Também, com artistas do calibre de Norsola Johnson e Thierry Amar (gy!be), Damo Suzuki e Eric Craven (Hangedup), é moleza. Para fechar, Sixtoo deixa rolar “How Can We Hang on to a Dream”, do Tim Hardin. Esse manja.
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 Abner Jay “One Man Band” (Subliminal Sounds) O selo sueco Subliminal Sounds, responsável pelo fantástico resgate de gênios locais como Åke Sandin e Pärson Sound, aventura-se em terra estrangeira em busca da one man band do pastor Abner Jay. Pregando por todo sul dos Estados Unidos durante praticamente 70 anos, Jay viajava numa cabine portátil que se transformava num palco, completo com sistema de som, onde controlava partes de bateria enquanto cantava tocando banjo e gaita. O repertório alternava composições próprias, canções tradicionais herdadas de seu avô, um ex-escravo, e pregações que iam do cômico ao reflexivo. Abner Jay lançou incontáveis discos e cassetes, que vendia em suas turnês. Com sua morte, em 1993, esse material se tornou praticamente impossível de ser recuperado. One Man Band, o disco, não traz grandes informações nesse sentido, mas as gravações, com citações ao Vietnã e LSD, certamente nos levam direto aos anos 60. Muito além da excentricidade, o blues de Abner Jay é único e cativante. Melancólico, mas otimista.
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 Ghost “Hypnotic Underworld” (Drag City) Passaram-se cinco anos desde o último lançamento (saíram dois discos simultaneamente, na verdade) da banda japonesa Ghost e Hypnotic Underworld, o sexto álbum de estúdio. Nesse período, o grupo gravou Damon & Naomi With Ghost, que dispensa maiores explicações, e emprestou o fantástico guitarrista Michio Kurihara para a turnê mundial da dupla, que virou disco e acabou até passando pelo Brasil. Em Hypnotic Underworld, o Ghost toma forma de um sexteto, liderado pelo genial Masaki Batoh. Uma suíte em quatro partes abre o disco e o nomeia. O folk psicodélico convive em perfeita comunhão com longas jams de improviso, o acústico encontra o elétrico, e ainda, o eletrônico, o peso do rock progressivo desinquieta a delicadeza dos instrumentos tradicionais orientais. Numa palavra, esse é um disco de rock progressivo como não se ouvia desde os anos 70. Até Syd Barrett eles gravaram, ainda que seja preciso um pequeno esforço para encontrá-lo. Mais um para a lista de grandes discos do ano. Perfeito.
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 Thee Silver Mountain Reveries “Pretty Little Lightning Paw” (Constellation) Eles acham que vão nos despistar, mudando de nome a cada disco, trocando de identidade a cada passo, tornando-se uma nova banda a cada aparição. Pode levar mais tempo, podemos precisar ouvir mais notas, mas é indescritível o momento em que nos percebemos diante de um rosto familiar. Originalmente, Pretty Little Lightning Paw, quarto lançamento do Silver Mt. Zion, era apenas uma prenda oferecida na turnê européia do grupo. Suas quatro canções originam-se de rascunhos inacabados e sobras de estúdio de This Is Our Punk-Rock (2003). Foi naquele álbum que o grupo ganhou voz, com a adição de um coro e canções com letras. Aqui, esse elemento já soa próprio, deixando o resto da banda trabalhar nos belos arranjos orquestrais que os consagraram. Juntas, essas duas facetas do Silver Mt. Zion integraram-se em perfeita harmonia, tão natural quanto um encontro de amigos que há muito não se viam. Houve tempo para aperfeiçoar o canto também, fazer sua presença mais consistente. Que venha o novo álbum.
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 Anaksimandros “River of Finland” (Eclipse) Um dos panoramas atuais mais interessantes da comentada cena free folk está na Finlândia. Nomes como Kemialliset Ystävät e Avarus são apenas a ponta do iceberg, portas de entrada para o universo onde o folk e o experimentalismo se encontram. São exatamente esses dois grupos que emprestam integrantes para o Anaksimandros, uma espécie de projeto sazonal. Indeciso sobre qual hemisfério do globo fazer parte, o grupo finlandês encontra parâmetros no som do coletivo naturalista norte-americano Jewelled Antler, abdicando de instrumentos convencionais para entrar em contato com a musicalidade mais primitiva da alma humana. Assim, River of Finland é um amontoado de ruídos bestiais, percussão primordial e cantos ritualísticos, os corpos e a natureza ao redor são as únicas ferramentas para criar sons. Sim, há de se criar os sons, muitos deles, para eventualmente descobrir a música. O improviso é instintivo, a psicodelia é conseqüência. Universal, porém extremamente pessoal ao mesmo tempo. Genial.
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 Jan Jelinek avec The Exposures “La Nouvelle Pauvreté” (~scape) No primeiro álbum sob seu próprio nome depois do incrível Loop-finding-jazz-records, de 2001, Jelinek tira de si a responsabilidade listando como co-autora a fictícia The Exposures. Isso pode significar diversas coisas. Acho difícil ele lançar um álbum se perdeu a confiança no próprio trabalho. Deve ter aprontado alguma ou é uma piada que só ele achou graça. De cara, parece tudo normal. Os verdadeiros co-autores da obra de Jelinek, antigos e obscuros discos de jazz, de preferência mal-tratados, dão as caras logo na primeira faixa. Soul e jazz são apenas referências nesse amálgama de música negra, de dub digital e house para escutar deitado. De repente, surpresa! Jelinek canta. Sinceramente, não há tanto impacto quanto eu faço parecer. Muito pelo contrário, a transição é suave. Porém, o vocal pode ser um recurso desnecessário. Uma música transforma-se completamente com uma voz, seja para o bem ou mal. La Nouvelle Pauvreté não é um passo em falso, mas a ousadia de se revelar por inteiro.
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