"four hearts in a can, speeding through the countryside and they're driving as fast as they can"

- four hearts in a can, smog

 


Devendra Banhart “Niño Rojo” (Young God)
O Devendra Banhart de Niño Rojo é o mesmo de Rejoicing in the Hands, lançado cedo este ano. As músicas de ambos os discos foram gravadas na mesma seção, mas a repercussão do primeiro álbum joga luz sobre o segundo. Seu talento foi reconhecido, de tradicionalistas do folk a fãs de música experimental, ou além, como um daqueles artistas apreciados pelas diferentes gerações, um Bob Dylan moderno. Banhart é o retrato atual dos Estados Unidos: um garoto criado num país de terceiro mundo, numa religião de outro. Cabe a ele resgatar a identidade cultural do país, relembrar a nascente estrangeira, atravessar os anos da história agregando algo aqui e ali. É tudo tão natural e sua existência soa tão deslocada que é difícil pensar nele como um contemporâneo; ironicamente é isso que o torna tão atual. Niño Rojo é um disco introspectivo, que leva tempo para se desvendar, com canções de arranjos mais cheios, sem a urgência e euforia de Rejoicing in the Hands. Devendra Banhart conseguiu mais uma vez.

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Visite: www.younggodrecords.com





Radian “Juxtaposition” (Thrill Jockey)
Com o lançamento de seu terceiro álbum, o trio austríaco Radian aos poucos solidifica sua posição de destaque no circuito de música experimental. Reciclando elementos orgânicos e eletrônicos no mesmo peso e medida, o resultado é equalizado numa mistura de post-rock e glitch que pode ser entendida como uma versão futurista do krautrock dos alemães do Can. Eles tocam seus instrumentos como robôs e seus computadores agem como seres humanos. Em Juxtaposition, o grupo registrou a parte eletrônica em Viena, gravando os instrumentos convencionais através de filtros de sintetizadores. Os sons foram processados e arranjados de forma a conversarem com o baixo e bateria, tocados ao vivo. Foi então que o trio partiu para Chicago e terminou o disco nos estúdios do Tortoise, com a ajuda de John McEntire, com quem já havia trabalhado no absurdo Rec.Extern, de 2002. No título, o Radian entrega uma valiosa pista para compreender o disco. Pela justaposição que ele se constrói, graças a ela se movimenta.

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Visite: www.radian.at





Joanna Newsom “The Milk-Eyed Mender” (Drag City)
Outra nova estrela da cena folk moderna, a norte-americana Joanna Newsom tem aquecido corações por onde passa. The Milk-Eyed Mender, seu disco de estréia, compila regravações de canções de seus cd-rs caseiros e chegou a Drag City por indicação de ninguém menos do que Will Oldham. Harpista de formação clássica e voz de menina, contadora de histórias e obcecada por bluegrass e folk dos anos 60, Newsom já teve sua música aferida ao encontro de Björk e Incredible String Band. Seus arranjos, delicados e pomposos, combinados com a natureza elitista de um instrumento como a harpa, podem soar por demais excêntricos numa primeira audição. Seu tom de voz não é para qualquer desavisado, bem como a temática de suas letras, que soam como surrealismo àqueles que perderam a imaginação para a rotina da vida adulta. Newsom não podia se preocupar menos com isso e é assim que nos conquista. O encontro desses elementos, extravagantes a princípio, acorda em nós as crianças que fomos. O resto é brincadeira.

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Visite: www.dragcity.com





Gang Gang Dance “Gang Gang Dance” (Fusetron)
Nova estrela nos holofotes da cena experimental nova-iorquina, aquela que deu ao mundo bandas como Animal Collective e Black Dice, pra ficar nos mais conhecidos, o Gang Gang Dance é um grupo formado por coadjuvantes, músicos que orbitam como banda de apoio de artistas semi-desconhecidos como Neil Michel Hagerty e Cass McCombs. Tomando o mesmo rumo que o Sunburned Hand of the Man, nada como lançar discos em cd-r e vinil, em edições de 100 cópias, para atrair atenção. Quanto mais difícil, melhor. Musicalmente, o grupo também não fica longe do coletivo de Boston, mesclando linhas de baixo hipnóticas e percussão primitiva, combinando elementos de música oriental e africana e partindo de estruturas suficientemente sólidas para deixar o improviso tomar conta das criações. O grande diferencial está por toda parte no auto-intitulado disco de estréia: as vocalizações insanas de Liz Bougatsos e Nathan Maddox, que trazem à tona o choque das composições instantâneas de Damo Suzuki. Impressionante.

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Comets on Fire “Blue Cathedral” (Sub Pop)
Confesso que fiquei preocupado quando soube que o novo álbum do Comets on Fire sairia pela Sub Pop. Será que eles se transformariam em mais um clone de Stooges e MC5 só para vender mais discos? A resposta é um não em letras garrafais. A média de tempo das faixas continua acima dos cinco minutos, com passagens épicas como a abertura “The Bee and the Cracking Egg”, com quase oito minutos. Outra boa notícia é que o quarteto incorporou um antigo colaborador, Ben Chasny (Six Organs of Admittance), além de contar com o talento do saxofonista Tim Daly, nesse disco. Em Blue Cathedral, o terceiro álbum, o grupo evolui regredindo, agregando cada vez mais elementos dos anos 60 e 70. Poucos teriam a coragem de experimentar com rock de garagem, free jazz, rock progressivo e hard rock. Mas menos ainda teriam a capacidade de transformar isso em algo tão natural. Na verdade, nada disso é esquisito para uma banda que tem um integrante cujo instrumental principal é um pedal de efeito. Psicodelia é isso.

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Visite: www.subpop.com/bands/comets_on_fire





Jason Forrest “The Unrelenting Songs of the 1979 Post-Disco Crash” (Sonig)
Trabalhando como DJ numa rádio nova-iorquina, Jason Forrest percebia músicas brotarem entre os discos que tocava. Sobreposições e colagens montavam-se em sua mente, o acervo da rádio provia-lhe todo material que precisava. Desde a escolha da irônica alcunha Donna Summer, abandonada devido a problemas legais com a própria, Forrest pensava como um legítimo discípulo da plunderfonia de John Oswald: fazer música a partir de música. Suas colagens transformam em disco – sua grande paixão – o que antes existia como rock progressivo, free jazz, hip hop, metal, classic rock e qualquer besteira dos topos das paradas. A grande sacada é que, mesmo após intenso processo de desconfiguração digital, melodias ainda são reconhecíveis, adicionando novas características à audição do disco. Paralelos fáceis com artistas como Avalanches ou DJ Shadow nem ao menos se aproximam da experiência sonora de The Unrelenting Songs of the 1979 Post-Disco Crash. Quem disse que música experimental não serve pra dançar?

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Kemialliset Ystävät “Alkuhärkä” (Fonal)
Entre os artistas da cena free-folk finlandesa, um dos grandes nomes é Kemialliset Ystävät, projeto liderado por Jan Anderzén, que além de fazer uso de integrantes do Anaksimandros e Avarus, recebe nesse disco as colaborações de Dylan Nyoukis (Decaer Pinga) e Campbell Kneale (Birchville Cat Motel). Totalmente imerso em esoterismo e psicodelia, Alkuhärkä é baseado num sonho de Anderzén, que o coloca num mundo sem espaço, pessoas ou algum tipo de ação, apenas uma máquina onde saiam sons. Enquanto ele recebia secreções áureas de um autômato do sétimo mundo, acordou com uma borboleta em sua orelha. Sabe-se lá o significado disso, mas a representação esquizofrênica de Alkuhärkä certamente se aproxima dessas sensações. Envoltas pelas pinturas surrealistas de Anderzén, as canções nunca param de mudar. Carregam tanto primitivismo que parecem nos tocar em genes adormecidos pela evolução, resgatando vibrações primais, comuns a qualquer um de nós. Alkuhärkä é nascer de novo, mas sem antes morrer.

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Akira Rabelais “Spellewauerynsherde” (Samadhisound)
Sabe o disco novo da Björk? Aquele só com voz? Esquece. O compositor norte-americano Akira Rabelais mostra o verdadeiro potencial das vozes islandesas. Ao deparar-se com uma pilha de rolos de fitas abandonados, Rabelais encontrou uma série de gravações a capella de canções islandesas de lamento, datadas do final dos anos 60, começo dos 70. Rabelais é um músico que escreve software, não um engenheiro que faz música, como ele mesmo costuma dizer, mas até mesmo seu olhar diante da tecnologia é artístico; seus programas estão mais próximos dos labirintos de Borges do que das janelas de Gates. Em Spellewauerynsherde, seu quarto álbum, Rabelais tira proveito de sua obra mais famosa, o software Argeiphontes Lyre, um processador de som munido de filtros e geradores. As vozes, sem tratamento, são tão magníficas que é difícil imaginar que a interferência de Rabelais não seja ruidosa. Mas sua sutileza traz graça e leveza à angústia litúrgica do coral, não distante das obras para voz de Arvo Pärt.

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