Tony Da Gatorra por Bruno Ramos
Na primeira vez em que vi Tony da Gatorra, eu ainda mal conhecia
suas músicas. Há uma festa que ocorre todas as quintas
na Rua Minas Gerais e ele tinha vindo de Esteio para se apresentar.
Após 18 horas em um ônibus, estava em São Paulo,
num quarto de hotel que tinha uma janela. Era no fim de fevereiro
de 2005.
Eu entrei no quarto com dois amigos que já o conheciam, um
deles havia organizado a vinda de Tony. Nós entramos e ele
estava com uma camiseta branca, com alguma espécie de mensagem
política da qual não me lembro bem. O quarto estava
um forno e a televisão ligada num telejornal noturno.
"Báh, o Papa está mal! Falaram que ele está
muito mal...". Começamos a conversar com Tony e ele
começou a se organizar para irmos para a passagem de som.
Ele mostrou as gatorras para mim. Ele havia trazido as duas únicas
já feitas. Uma era vermelha e a outra, azul e branca. Mostrou
os símbolos da paz que ele pendurava no pescoço (inclusive
um que ele havia feito para mim, escrito "PAX", em preto,
com fundo branco e detalhes em rosa). Mostrou os símbolos
da "páz", como ele gosta de escrever, que ele faz
para dar aos amigos. Havia trazido algumas tiaras brancas, em que
havia escrito paz, também para dar de presente. Depois da
proposta de um de nós que estávamos com ele, Tony
se sente confortável com idéia de colocar algumas
à venda no lugar para onde estávamos indo. Após
explicar o funcionamento da gatorra (uma mistura de bateria eletrônica
e sintetizador), ele as guarda nos "cases" que ele mesmo
fez, pega a camisa com a qual vai se apresentar (na verdade, um
colete vermelho com o símbolo da paz em branco no lado do
peito oposto ao do coração) e uma luva negra, de couro
e cortadas desde os primeiros nós dos dedos, para sua mão
direita.
Tony é Antonio Carlos Correia de Moura, 53 anos, fará
54 em 03/08/2005. Vive em Esteio, Rio Grande do Sul. Conserta televisores
e aparelhos eletrônicos. Ele construiu um instrumento e, ao
tocá-lo, canta letras de protesto. Como não tem dinheiro,
vendeu sua moto para construir a gatorra. As pessoas ao seu redor
não necessariamente o entendem. Ele fez uma música
de amor quando sua namorada o deixou. Ela não entedia seu
gosto por fazer música.
Ele é uma daquelas pessoas que dificilmente são encontradas:
uma pessoa sem maldade, incapaz de falar algo que seja ligeiramente
obsceno, que mais escuta que fala. Deve ter lá seus defeitos.
É mais inocente do que a maioria das pessoas que eu conheço,
o que não significa que ele seja incapaz de se proteger de
quem lhe quer fazer algo de mal. Ele crê em sua arte e acha
que pode fazer sucesso em grande escala.
O show começou por volta de meia noite. Já era sexta-feira
e eu anunciei o show de Tony. Algumas pessoas sabiam suas letras
e cantavam alguns versos acompanhando Tony. Outras aprenderam as
letras naquele momento e também estavam cantando.
Tony, entre as músicas, falava sobre os temas que lhe são
importantes. Antecipava os temas de suas letras. Ele falava para
jovens que vivem em São Paulo, que nunca passaram fome, que
não necessariamente se importam com questões políticas,
que estavam se divertindo numa quinta-feira. Mas todos pareciam
gostar de Tony.
Fiquei um pouco desconfortável. Todos estavam gostando de
Tony ou estavam rindo dele? Se as letras não apelam para
problemas do cotidiano daquelas pessoas, elas só poderiam
estar dando risada de Tony! Isso me pareceu desrespeitoso, pois,
ao que me parecia, Tony não havia se dado conta disso! Hoje,
uns 4 meses depois, já não sei se foi isso mesmo o
que aconteceu... já não sei se são tão
impossíveis algumas gargalhadas respeitosas. O que importa
é que Tony estava contente. Para ele, aquilo tudo era uma
grande motivação. Em Esteio, não há
cinqüenta pessoas a sua volta o aplaudindo! Ele já havia
escutado críticas de pessoas próximas em função
de sua perseverança em continuar se dedicando à música.
Ao menos em São Paulo havia aplausos! De algum modo, em São
Paulo, as coisas estranhas são respeitadas pelo simples motivo
de que são estranhas. Não era uma pessoa de 20 anos
cantando contra as injustiças sociais; era um senhor de mais
de cinqüenta anos! Aquilo não podia ser falso!
Tony simboliza algo. Ele tem as respostas. Ele tem certezas. Não
há muitos tons de cinza. Nos dias de hoje, Tony tem um discurso
que não mais é encontrado com tanta freqüência.
Ela fala sobre o capitalismo e o mal que ele representa. Mas as
pessoas que o assistiam gostam do que o capitalismo proporciona.
Ele fala sobre injustiça social, mas as pessoas que estavam
lá compõem a elite a qual Tony se refere em suas letras.
A fome para elas é algo auto-imposto com a finalidade de
emagrecer.
Tony, aos 8 anos, estava meio sem rumo. Sua mãe havia morrido
("Pode reparar: mulher com muitos filhos morre cedo. Ter filho
suga muita energia. Báh..."). Viviam Tony, 8 irmãos
e o pai. Como o pai trabalhava fora, numa fábrica de papelão,
ele ficava livre para sair e voltar para casa apenas ao fim do dia.
Vivia pelas ruas, como qualquer criança sem a vigilância
de um adulto faria.
Seu pai, para resolver o problema, foi até o Palácio
Piratininga para falar com o governador, Leonel Brizola. O ano era
o de 1958. O pai de Tony conseguiu duas bolsas, uma para ele e outra
para seu irmão. Ambos foram estudar no Patronato Agrícola,
um internato agrícola administrado por padres (para meninos
de 08 a 14 anos).
O dia-a-dia era: acordar cedo, café da manhã, missa,
escola, almoço, horas livres, capinar e trabalhar na terra,
descansar, jantar, dormir. Talvez seja dessa época que Tony
adquiriu o catolicismo que cultiva até hoje.
Tony disse que, nas horas livres, jogavam futebol, iam pescar no
açude. Aos domingos, algumas excursões eram organizadas
pelos padres.
Nas férias, apenas a minoria dos alunos voltava para casa
para ver a família. "Meu pai não tinha dinheiro
para pagar as passagens para eu e meu irmão voltar para casa.
Mas ele ia nos visitar... Seriam mais duas bocas em casa. No patronato
agrícola havia fartura".
Tony me contou que desde cedo já protestava. Não
queria ir sempre às missas. Reclamava que não queria
ir e um padre falava: "Vai embora então!", ele
ficava de fora, esperando a missa acabar.
Tony contou que na época do patronato gostava de Brizola.
Ela havia dado as bolsas que seu pai foi pedir. Falava bem de Brizola
para os outros garotos. Os padres não gostavam. "Brizola
é um subversivo, um comunista", diziam os padres. Um
dia, apareceu escrito no banheiro: "Viva Brizola!". O
diretor do patronato não teve dúvidas, chamou Tony
para uma conversa. "Báh, ele quase me arrancou a orelha.
Não fui eu que escrevi, foi algum outro garoto!". "Foi
injustiça, Tony", eu disse. "Báh, capaz
que não...".
"Os padres nem sabiam o que era comunista. Jesus era comunista,
Deus também. Comunista é que considera que as coisas
são comuns, coletivas...". "A Igreja era conservadora,
Tony". "É, mas hoje não". Não
falei nada...
Aos 13, Tony saiu do patronato e foi trabalhar como boy num escritório
de arquitetura em Porto Alegre. "Eu fazia banco, pegava lanches,
fazia de tudo...". Aos 15, Tony se tornou aprendiz em uma empresa
metalúrgica. Aprendeu a trabalhar com o torno mecânico,
também era frisador.
Aos 19, veio para São Paulo. "Báh, eu era solteiro.
Vim ver como era". Trabalhou como frisador em uma empresa na
Avenida Tiradentes. Ele viu a placa e falou que sabia fazer o trabalho
de frisador.
Morava em uma pensão, num quarto com mais 4 pessoas, banheiro
coletivo. "Tinha muito nordestino, acho eu era o único
gaúcho". "Báh, era muito difícil.
Um quarto individual era muito caro! Pensão é difícil.
Tu sabe como é, né?". Ficou mais de um ano e
voltou para Esteio, morando com o pai.
Aos 25 se casou.
No segundo show do Tony no bar da Rua Minas Gerais, lugar em que
pela primeira vez tocou em São Paulo, eu também anunciei
o show. Era dia 7 de julho e o contexto foi importante.
Tony, após ter tocado em São Paulo em fevereiro,
foi convidado para tocar em um festival no SESC Pompéia em
maio (4HYPE). Mas, como ele não tinha vinculação
com a Ordem dos Músicos do Brasil, uma regra do SESC para
aqueles que se apresentam na instituição, o show de
Tony foi cancelado.
Mas o troco contra a OMB/SP veio dia 06 de julho, quando uma juíza
federa concedeu uma liminar (antecipação de tutela)
garantindo que Tony poderia se apresentar livremente em São
Paulo até que a sentença fosse proferida. Tony estava
garantido.
Contei brevemente essa história ao apresentá-lo.
O público, umas 50 pessoas, estava meio que descontrolado.
Cantavam todas as músicas, gritavam o nome de Tony, pediam
solos de gatorra. Tony me disse depois que ficou emocionado.
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