Tony da Gatorra é um artista. Mora em Esteio, Rio Grande do Sul, onde sobrevive do conserto de aparelhos eletrônicos. No final da década de 90, Tony criou um instrumento, a gatorra, uma mistura de bateria eletrônica e sintetizador. Construiu a gatorra para protestar contra a violência, a corrupção, a ganância, a fome e outros males do Brasil. Tony envia semanalmente cartas para São Paulo, digitadas sem intervenções e publicadas nesse blog.

Tony da Gatorra por:
Bruno Ramos

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Tony Da Gatorra por Bruno Ramos

Na primeira vez em que vi Tony da Gatorra, eu ainda mal conhecia suas músicas. Há uma festa que ocorre todas as quintas na Rua Minas Gerais e ele tinha vindo de Esteio para se apresentar. Após 18 horas em um ônibus, estava em São Paulo, num quarto de hotel que tinha uma janela. Era no fim de fevereiro de 2005.
Eu entrei no quarto com dois amigos que já o conheciam, um deles havia organizado a vinda de Tony. Nós entramos e ele estava com uma camiseta branca, com alguma espécie de mensagem política da qual não me lembro bem. O quarto estava um forno e a televisão ligada num telejornal noturno.

"Báh, o Papa está mal! Falaram que ele está muito mal...". Começamos a conversar com Tony e ele começou a se organizar para irmos para a passagem de som. Ele mostrou as gatorras para mim. Ele havia trazido as duas únicas já feitas. Uma era vermelha e a outra, azul e branca. Mostrou os símbolos da paz que ele pendurava no pescoço (inclusive um que ele havia feito para mim, escrito "PAX", em preto, com fundo branco e detalhes em rosa). Mostrou os símbolos da "páz", como ele gosta de escrever, que ele faz para dar aos amigos. Havia trazido algumas tiaras brancas, em que havia escrito paz, também para dar de presente. Depois da proposta de um de nós que estávamos com ele, Tony se sente confortável com idéia de colocar algumas à venda no lugar para onde estávamos indo. Após explicar o funcionamento da gatorra (uma mistura de bateria eletrônica e sintetizador), ele as guarda nos "cases" que ele mesmo fez, pega a camisa com a qual vai se apresentar (na verdade, um colete vermelho com o símbolo da paz em branco no lado do peito oposto ao do coração) e uma luva negra, de couro e cortadas desde os primeiros nós dos dedos, para sua mão direita.

Tony é Antonio Carlos Correia de Moura, 53 anos, fará 54 em 03/08/2005. Vive em Esteio, Rio Grande do Sul. Conserta televisores e aparelhos eletrônicos. Ele construiu um instrumento e, ao tocá-lo, canta letras de protesto. Como não tem dinheiro, vendeu sua moto para construir a gatorra. As pessoas ao seu redor não necessariamente o entendem. Ele fez uma música de amor quando sua namorada o deixou. Ela não entedia seu gosto por fazer música.

Ele é uma daquelas pessoas que dificilmente são encontradas: uma pessoa sem maldade, incapaz de falar algo que seja ligeiramente obsceno, que mais escuta que fala. Deve ter lá seus defeitos. É mais inocente do que a maioria das pessoas que eu conheço, o que não significa que ele seja incapaz de se proteger de quem lhe quer fazer algo de mal. Ele crê em sua arte e acha que pode fazer sucesso em grande escala.

O show começou por volta de meia noite. Já era sexta-feira e eu anunciei o show de Tony. Algumas pessoas sabiam suas letras e cantavam alguns versos acompanhando Tony. Outras aprenderam as letras naquele momento e também estavam cantando.

Tony, entre as músicas, falava sobre os temas que lhe são importantes. Antecipava os temas de suas letras. Ele falava para jovens que vivem em São Paulo, que nunca passaram fome, que não necessariamente se importam com questões políticas, que estavam se divertindo numa quinta-feira. Mas todos pareciam gostar de Tony.

Fiquei um pouco desconfortável. Todos estavam gostando de Tony ou estavam rindo dele? Se as letras não apelam para problemas do cotidiano daquelas pessoas, elas só poderiam estar dando risada de Tony! Isso me pareceu desrespeitoso, pois, ao que me parecia, Tony não havia se dado conta disso! Hoje, uns 4 meses depois, já não sei se foi isso mesmo o que aconteceu... já não sei se são tão impossíveis algumas gargalhadas respeitosas. O que importa é que Tony estava contente. Para ele, aquilo tudo era uma grande motivação. Em Esteio, não há cinqüenta pessoas a sua volta o aplaudindo! Ele já havia escutado críticas de pessoas próximas em função de sua perseverança em continuar se dedicando à música. Ao menos em São Paulo havia aplausos! De algum modo, em São Paulo, as coisas estranhas são respeitadas pelo simples motivo de que são estranhas. Não era uma pessoa de 20 anos cantando contra as injustiças sociais; era um senhor de mais de cinqüenta anos! Aquilo não podia ser falso!

Tony simboliza algo. Ele tem as respostas. Ele tem certezas. Não há muitos tons de cinza. Nos dias de hoje, Tony tem um discurso que não mais é encontrado com tanta freqüência. Ela fala sobre o capitalismo e o mal que ele representa. Mas as pessoas que o assistiam gostam do que o capitalismo proporciona. Ele fala sobre injustiça social, mas as pessoas que estavam lá compõem a elite a qual Tony se refere em suas letras. A fome para elas é algo auto-imposto com a finalidade de emagrecer.

Tony, aos 8 anos, estava meio sem rumo. Sua mãe havia morrido ("Pode reparar: mulher com muitos filhos morre cedo. Ter filho suga muita energia. Báh..."). Viviam Tony, 8 irmãos e o pai. Como o pai trabalhava fora, numa fábrica de papelão, ele ficava livre para sair e voltar para casa apenas ao fim do dia. Vivia pelas ruas, como qualquer criança sem a vigilância de um adulto faria.

Seu pai, para resolver o problema, foi até o Palácio Piratininga para falar com o governador, Leonel Brizola. O ano era o de 1958. O pai de Tony conseguiu duas bolsas, uma para ele e outra para seu irmão. Ambos foram estudar no Patronato Agrícola, um internato agrícola administrado por padres (para meninos de 08 a 14 anos).

O dia-a-dia era: acordar cedo, café da manhã, missa, escola, almoço, horas livres, capinar e trabalhar na terra, descansar, jantar, dormir. Talvez seja dessa época que Tony adquiriu o catolicismo que cultiva até hoje.

Tony disse que, nas horas livres, jogavam futebol, iam pescar no açude. Aos domingos, algumas excursões eram organizadas pelos padres.

Nas férias, apenas a minoria dos alunos voltava para casa para ver a família. "Meu pai não tinha dinheiro para pagar as passagens para eu e meu irmão voltar para casa. Mas ele ia nos visitar... Seriam mais duas bocas em casa. No patronato agrícola havia fartura".

Tony me contou que desde cedo já protestava. Não queria ir sempre às missas. Reclamava que não queria ir e um padre falava: "Vai embora então!", ele ficava de fora, esperando a missa acabar.

Tony contou que na época do patronato gostava de Brizola. Ela havia dado as bolsas que seu pai foi pedir. Falava bem de Brizola para os outros garotos. Os padres não gostavam. "Brizola é um subversivo, um comunista", diziam os padres. Um dia, apareceu escrito no banheiro: "Viva Brizola!". O diretor do patronato não teve dúvidas, chamou Tony para uma conversa. "Báh, ele quase me arrancou a orelha. Não fui eu que escrevi, foi algum outro garoto!". "Foi injustiça, Tony", eu disse. "Báh, capaz que não...".

"Os padres nem sabiam o que era comunista. Jesus era comunista, Deus também. Comunista é que considera que as coisas são comuns, coletivas...". "A Igreja era conservadora, Tony". "É, mas hoje não". Não falei nada...

Aos 13, Tony saiu do patronato e foi trabalhar como boy num escritório de arquitetura em Porto Alegre. "Eu fazia banco, pegava lanches, fazia de tudo...". Aos 15, Tony se tornou aprendiz em uma empresa metalúrgica. Aprendeu a trabalhar com o torno mecânico, também era frisador.

Aos 19, veio para São Paulo. "Báh, eu era solteiro. Vim ver como era". Trabalhou como frisador em uma empresa na Avenida Tiradentes. Ele viu a placa e falou que sabia fazer o trabalho de frisador.

Morava em uma pensão, num quarto com mais 4 pessoas, banheiro coletivo. "Tinha muito nordestino, acho eu era o único gaúcho". "Báh, era muito difícil. Um quarto individual era muito caro! Pensão é difícil. Tu sabe como é, né?". Ficou mais de um ano e voltou para Esteio, morando com o pai.

Aos 25 se casou.

No segundo show do Tony no bar da Rua Minas Gerais, lugar em que pela primeira vez tocou em São Paulo, eu também anunciei o show. Era dia 7 de julho e o contexto foi importante.

Tony, após ter tocado em São Paulo em fevereiro, foi convidado para tocar em um festival no SESC Pompéia em maio (4HYPE). Mas, como ele não tinha vinculação com a Ordem dos Músicos do Brasil, uma regra do SESC para aqueles que se apresentam na instituição, o show de Tony foi cancelado.

Mas o troco contra a OMB/SP veio dia 06 de julho, quando uma juíza federa concedeu uma liminar (antecipação de tutela) garantindo que Tony poderia se apresentar livremente em São Paulo até que a sentença fosse proferida. Tony estava garantido.

Contei brevemente essa história ao apresentá-lo. O público, umas 50 pessoas, estava meio que descontrolado. Cantavam todas as músicas, gritavam o nome de Tony, pediam solos de gatorra. Tony me disse depois que ficou emocionado.